A Viagem da Viagem

17 09 2008

Influenciado por um grande amigo que tinha acabado de voltar dos Estados Unidos, ainda mais maluco do que antes de ter ido, tomei uma grande decisão aos 15 anos: iria fazer intercâmbio!

A partir dessa decisão, foi correr atrás do projeto: ver as instituições disponíveis, os programas, o que era necessário para ser um intercambista… o caminho mais tranquilo, confiável e seguro acabou sendo a mesma instituição que o meu amigo tinha viajado, o AFS Intercultura Brasil.

Conversei com ele, e juntamente com mais alguns amigos resolvemos nos inscrever no processo seletivo para viajar em 1994. Era mais de um ano de processo, então dava muito tempo para amadurecer a idéia comigo mesmo e com meus familiares.

Na inscrição, já tinha que colocar a preferência pelos países de destino. A Espanha foi minha primeira opção, com vários países da Europa, a Austrália e a Nova Zelândia entre os dez primeiros. Os Estados Unidos não apareceu nem entre os 20… 

A primeira etapa foi uma prova de conhecimentos gerais. Me lembro até hoje as únicas duas questões que errei: uma em que a resposta era eutanásia e a palavra me fugiu da memória inexplicavelmente, e a outra sobre qual era o partido político do Bush (na época, só o pai era famoso). Não entendia muito de política, principalmente a americana, mas tinha 50% de chances de acertar: errei, escrevi democrata…

Os classificados nessa prova passaram para a segunda etapa: uma gincana. Fomos divididos em grupos e várias tarefas deveriam ser cumpridas durante algumas semanas até a gincana propriamente dita, realizada num fim-de-semana na praça Flamarion Vanderley em Montes Claros.

Não me lembro muito bem das tarefas, mas uma delas era recolher a maior quantidade de material reciclável. Teve também algum teatro, recolhimento de objetos peculiares, coisas típicas de qualquer gincana.

Veio o resultado, e nosso grupo foi muito bem. Me lembro que uma menina foi selecionada direto pra ir pros EUA, e eu fiquei na reserva de uma vaga pra Europa, pois não tinha saído nenhuma para Montes Claros. Até que apareceu uma vaga pra Rússia, mas ninguém quis ir. 94, época de recessão pela queda do regime soviético, todos nós ficamos receosos com o que poderia acontecer numa aventura assim… e surgiu outra vaga pros EUA, que foi preenchida pela próxima da lista. Só faltava mais um e o próximo era eu.

Eis que apareceu uma vaga para a Dinamarca. A princípio, o cara que se classificou antes de mim tinha aceitado, mas depois de um tempo desistiu por algum motivo. E recebi o telefonema mais do que esperado: se eu queria ir pra Dinamarca. Na minha lista inicial, deveria ser a 12a. colocada. Pedi um dia para pensar, liguei pro meu pai, irmãos e alguns amigos, olhei na enciclopédia – é, naquela época ainda não tinha internet acessível a esse ponto – e resolvi que iria aceitar a oportunidade.

A partir daí, foi pesquisar sobre o país: costumes, cultura, geografia, história. Fui na embaixada em Brasília e consegui um bocado de material, e até comprei um dicionário Português-Dinamarquês-Português que me foi e ainda é muito útil. E recebi o material do AFS, que além de informações sobre a Dinamarca e até uma fita cassete e cartilha com aulas iniciais de dinamarquês, tinha um calhamaço de questionários que deveriam ser preenchidos por mim, pela minha família, escola, médico, dentista. Uma correria para conseguir todos os documentos e assinaturas e depoimentos e avaliações que foram pedidas.

Depois foi tirar o passaporte e a autorização no juizado de menores para viajar sozinho por lá, providenciar o visto, começar a pagar as mensalidades e aguardar notícias do AFS. Como não havia e-mail, máquina digital era coisa rara e até mesmo celular ainda era artigo de luxo, o jeito era olhar a caixa de correio todos os dias para ver se tinha novidades.

E não é que recebi uma carta com uma foto e um questionário respondido pela família que iria me receber? Muito pouca coisa na verdade: soube que eram um casal de velhinhos – ele com 58 e ela com 52 – que tinha três filhos, mas que esses já não moravam em casa. Ele era técnico de máquinas de ordenha e ela secretária da escola em que eu iria estudar. Protestantes, não fumavam e não tinham animais domésticos dentro de casa. Moravam na zona rural de uma cidade pequena da ilha de Bornholm. E o resto era só especulação e imaginação… hoje a aura de mistério se desvendou um pouco, pois os intercambistas trocam e-mails, fotos, conversam no skype, na webcam, no msn, e já fazem parte da família antes mesmo de embarcarem no avião. Naquela época, o processo de conhecimento era realizado ali, na marra, olho no olho…

A partir daí foram as festas de despedida – no colégio, no grupo de jovens, no escoteiro, na turma da Rua Francisco Versiani Ataíde – uma festa surpresa de verdade, me enganaram direitinho, foi excelente! – quantas vezes ouvi “Canção da América” em um mês…

Até que chegou o momento de embarcar no ônibus com sentido ao Rio de Janeiro. Capiau tabaréu, fui com um amigo da minha tia que tinha conhecidos no Rio e que me daria uma força. Morrendo de medo da cidade grande, pela primeira vez me passou pela cabeça: “O que estou fazendo aqui”. Essa frase, sempre sem resposta, fez parte de vários momentos da minha vida a partir dali.

Chegando na rodoviária do Rio, me lembro do misto de ansiedade e medo, de ter visto o Cristo Redentor, de ser recepcionado pelos conhecidos do meu acompanhante, e de darmos uma volta para ver, do carro, a Princesinha do Mar. E indo pra casa deles, em algum lugar do bairro de Botafogo (quem diria que depois de tanto tempo eu mesmo moraria aqui!). Teve uma reunião com todos os intercambistas que embarcariam naquela semana de julho de 1994 em algum lugar do Rio que não faço idéia de onde era, e naquele mesmo dia o grupo que iria para a Dinamarca e Noruega seguiu para o aeroporto, para embarcar no mesmo vôo com sentido a Copenhaguen. Éramos uns 15 pra Dinamarca e mais uns 15 pra Noruega, pelo que me lembro. De todos os lugares do Brasil, uma festa!!!

Primeiro aeroporto, malas despachadas, primeiro free shop, primeira compra: uma máquina fotográfica super-moderna, que rebobinava o filme sozinha quando chegava no final!!!! Primeiro choque cultural: descobrir como ligava a torneira da pia do banheiro… tive que esperar alguém colocar a mão embaixo para perceber que ali tinha um sensor para ligar o equipamento.

E assim o Jeca começou a descobrir o mundo…