Longe de casa…

29 10 2008

Naquela época, a Varig tinha um vôo direto que saía de São Paulo, fazia escala no Rio, em Londres e pousava em Copenhaguen. E já atrasava um bocado… na minha viagem, foi uma hora de atraso.

Nunca tinha voado, e talvez por influência dos comentários gerais sobre comidas de avião, achei todas as três refeições – jantar, café da manhã e almoço – horríveis. Mas achei muito legal ver as nuvens, a imensidão do Oceano Atlântico, as cidades pequenininhas lá de cima, conseguir visitar a cabine dos pilotos (ainda era permitido) e aquela bagunça que só um tanto de adolescente que sai de casa pela primeira vez consegue fazer.

Pousamos em Copenhaguen às 18h30, hora local. Sol alto, calor forte… o primeiro mito acabava de cair por terra: quem disse que a Dinamarca era um país frio? Devia estar uns 25 graus naquele fim de tarde.

Os estudantes de todo o mundo que chegam à Dinamarca pelo AFS ficam por uma semana em um language camp, um acampamento de ambientação em que têm o primeiro contato com o país, sua cultura, sua comida, seus costumes, tradições, etc… é uma excelente forma de evitar um choque cultural muito grande. Fomos divididos conforme a região do país em que iríamos passar o ano, e seguimos para os acampamentos. Meu grupo ficou em uma escola na cidade de Smørum, na grande Copenhaguen. Tinha gente do mundo todo:  Brasil, Chile, Colômbia, Venezuela, México, Estados Unidos, Canadá, Hungria, Nova Zelândia, Austrália, Turquia, Letônia, Barbados, Hong Kong, Tailândia, Japão. Entre os orientadores dinamarqueses, havia um que fez intercâmbio no Brasil e falava português fluentemente, o que facilitaria bastante em caso de emergência.

Estudantes do mundo inteiro no Language Camp

Estudantes do mundo inteiro no Language Camp

A primeira lição do idioma foi como pedir e agradecer, durante um jantar típico de batatas cozidas com um hambúrguer dinamarquês chamado frikadeller. Antes de tentar dormir, um bom banho (gelado, diga-se de passagem) para ver se ajudava a passar os efeitos do fuso horário. Mas para piorar a situação, veio o primeiro choque cultural: ver o sol se pôr às 22h30 e nascer às 4 da manhã. Quem consegue dormir com essa claridade?

Durante o acampamento, os estudantes ajudam em todas as tarefas: varrer a escola, preparar as refeições, lavar a louça. Já era um aprendizado, pois na Dinamarca todos ajudam nas tarefas de casa e não existe essa história de diarista ou empregada doméstica.

Passamos a semana tendo aulas de idioma dinamarquês, cozinhando comidas típicas, aprendendo músicas folclóricas, e vários bate-papos sobre religião, geografia, história, sistema educacional, tradições familiares, costumes, cultura, e várias situações com que poderíamos nos deparar naquele ano que começava ali.

Comendo cereja direto do pé

Comendo cereja direto do pé

Foi lá pelo terceiro dia, em uma caminhada que fizemos nas redondezas da escola, que me caiu a ficha de estar na Europa: vi uma paisagem típica de cartão-postal, com um laguinho, patos nadando, muitas flores e uma cerejeira carregada de frutas. Comer cereja tirada do pé, eita se o povo de Montes Claros me visse agora….

Todos no ônibus indo para a canoagem

Todos no ônibus indo para a canoagem

Fizemos também um passeio típico de verão europeu: uma canoagem. Pegamos uns três ônibus – sem roleta e pagando uma só passagem – até uma grande lagoa onde se podia alugar as canoas, e fomos três pessoas por canoa. Apanhamos bastante no início, mas depois pegamos o ritmo e foi muito divertido, com direito a virada de barcos e jogar água nos outros de sacanagem. Neste mesmo dia, fomos a uma praia e eu era bobo até na hora de escrever na agenda, já que está anotado: “o pessoal daqui é liberado!” Certamente eu vi um bocado de mulher fazendo topless, o que é normal em praias européias durante o verão, e fiquei achando aquilo o máximo mas minha timidez não iria me deixar escrever o que eu realmente queria dizer…

Paisagem da canoagem

Paisagem da canoagem

Antes do intercâmbio eu era um cara extremamente tímido, CDF, magricela e com óculos fundo-de-garrafa. Minha auto-estima não era das melhores, e já no terceiro dia percebi que tinha que ser muito mais extrovertido e corajoso se quisesse me dar bem naquela aventura. Tá escrito lá, na minha agenda, que a partir daquele dia 26 de julho de 1994 eu deveria mudar se quisesse chegar a algum lugar!

No quinto dia bateu a tristeza pela primeira vez, quando tivemos que escrever uma carta para a família que iria nos receber. Chorei escondido e, pela primeira vez desde que saí do Brasil, me perguntei o que estava fazendo ali. Ser intercambista é esse turbilhão de emoções, contar os dias que faltam pra voltar ao mesmo tempo que conta-se os dias que faltam pra ficar. Logo no dia seguinte a tristeza passou, pois uma família que tinha hospedado um intercambista foi conversar conosco para contar sua experiência, e eu fiquei muito empolgado, pois além de adorar as histórias do pessoal entendi quase tudo o que falaram em inglês.

Na última noite de acampamento, houve uma festa onde cada país apresentou uma esquete sobre seus costumes, depois um belo jantar e música até tarde.

No dia seguinte, as famílias do pessoal que iria ficar em Copenhaguen vieram buscá-los na escola. Eu e mais 5 estudantes teríamos que continuar a viagem, afinal ficaríamos hospedados em Bornholm, uma pequena ilha situada no meio do Mar Báltico (nem parece que ainda é Dinamarca), e ainda teríamos que pegar dois ferryboats e um ônibus cruzando o sul da Suécia.

Bornholm no canto direito do mapa...

Bornholm no canto direito do mapa...

Nossas famílias nos esperavam no porto de Rønne, a capital da ilha. Dali pra frente dependia só de mim…

André (Brasil), Nayelli (México), Kitty (Hungria), Sally (Austrália) e eu no ferryboat com destino a Bornholm

André (Brasil), Nayelli (México), Kitty (Hungria), Sally (Austrália) e eu no ferryboat com destino a Bornholm

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