Volta às aulas

17 11 2008

No primeiro semestre de 1994, antes de ir para a Dinamarca, meu colégio em Montes Claros recebeu uma intercambista da Tailândia, que ficou na minha turma. Para mim, foi um exemplo vivo de como as coisas poderiam correr com a minha experiência.

Seu nome era Seeweepa Machuay, ou alguma coisa do tipo, e como tradicionalmente todas as pessoas na Tailândia têm um apelido, ela era conhecida como Noo. Seu primeiro dia de aula foi algo inesquecível para todos: na sala, foi cercada pelos colegas que a enchiam de perguntas, ávidos por treinar o seu inglês e para satisfazer as curiosidades sobre um país tão exótico quanto a Tailândia. Na hora do recreio, então, foi praticamente um pandemônio, com a criançada da quinta, sexta séries loucas com a novidade.

Noo era uma menina extremamente simpática, representante genuína do país-sorriso, como a Tailândia é carinhosamente chamada. Apesar da timidez e da barreira do idioma, ela estava sempre disposta a conversar e responder às perguntas, e não hesitava em perguntar, pois era curiosíssima. Apaixonou-se por sorvete e pela comida mineira, e quando eu estava me preparando para viajar me deu dicas valiosíssimas.

Era praticamente impossível não me lembrar da Noo no caminho para o meu primeiro dia de aula. Como seria a recepção? Como seriam meus colegas? Será que eles iriam me bombardear com perguntas, que as crianças iriam querer saber tudo sobre mim e sobre o Brasil, ainda mais que a seleção de futebol tinha acabado de ganhar a Copa do Mundo?

Mas veio uma grande decepção: ninguém veio falar comigo, ficaram ali conversando entre si, olhando para mim, mas nada de conversa. Eu percebia que eles estavam curiosos, interessados em puxar um papo, mas até eu descobrir que não era frieza e sim tímidez, e até mesmo o tal do respeito pela individualidade do outro, passaram-se alguns dias… então já no terceiro dia de aula percebi que eu teria que “quebrar o gelo” e puxar conversa com as pessoas, e a partir desse momento tudo ficou muito mais fácil!

No pátio da escola, à espera do primeiro dia de aula

No pátio da escola, à espera do primeiro dia de aula

Na Dinamarca, as crianças ficam no Jardim de Infância até os 6 anos, como no Brasil, daí passam para a Primeira Série. O Ensino Fundamental tem 10 séries, porém na nona série pode-se optar entre fazer o último ano ou ir direto para o Gymnasium, equivalente ao nosso Ensino Médio. Pelo que me lembro, no Gymnasium já se pode escolher qual o direcionamento que seus estudos vão tomar: ciências humanas, cálculos, ciências agronômicas, ciências bioquímicas. E só vai para a faculdade quem realmente quer se aprofundar na carreira acadêmica ou nos cursos mais complexos como medicina ou advocacia. Para os outros, você faz um tipo de curso técnico que é reconhecido amplamente como qualificador de mão-de-obra.

Os dinamarqueses começam a aprender inglês já na primeira série primária, e da forma correta: primeiro aprendendo a ouvir, depois a falar, depois a ler e somente depois a escrever. É a forma natural do ser humano aprender uma linguagem, e acho que funciona muito bem!

As turmas têm o seu professor-referência, que é um professor determinado para acompanhar a turma durante os dez anos do Ensino Fundamental.

Na décima série, tive aulas de Dinamarquês, Inglês, Física (que na verdade era química), Matemática, Estudos Sociais (que dava uma passeada por Geografia e História) e um horário que a gente fazia coisas diversas, desde carpintaria até esportes, passando pela cozinha, jogos, visitas à biblioteca para pegar livros emprestados, relacionamento interpessoal. E eu era dispensado das aulas de alemão, e usava esse tempo para estudar um pouco mais o dinamarquês.

Décima série na sala de aula

Décima série na sala de aula

Na época considerava que o ensino de lá era bem mais fraco que o nosso, mas na verdade eles têm 10 anos para ver o que os brasileiros estudam em 8 anos. Então a matéria era muito mais fixada, estudada, aprendida efetivamente.

No começo, eu só conseguia acompanhar as aulas de Inglês e de Matemática. Nos outros horários, ficava escrevendo cartas, lendo alguma coisa, ou simplesmente viajando nos meus pensamentos. Ficava tranquilo, pois as provas só acontecem no meio e no final do ano-letivo, então até lá eu já teria aprendido o idioma e conseguiria recuperar tudo.

Minha turma tinha 20 alunos, e além de mim havia outra intercambista vinda da Estônia. Seu nome era Renna e seu segundo idioma era o Alemão. Era mais um motivo para eu aprender o dinamarquês mais rápido, pois era a única forma de conversarmos sem a ajuda de tradutores. E a sensação de ter uma pessoa logo ali, que você percebe ser divertida, legal, e acima de tudo, muito bonita, e não conseguir trocar nem 5 palavras com ela, é horrível!

E logo no primeiro dia de aula recebemos uma notícia que me faria ter certeza de que muita coisa espetacular ainda estava pela frente naquele ano: é uma tradição na Dinamarca que se faça uma viagem de formatura das turmas da décima série, e o nosso destino, na primavera, seria Londres! Com uma perspectiva tão boa assim logo no primeiro dia, qualquer espaço que poderia existir para depressão, tristeza, vontade de desistir e voltar para casa foi logo preenchido por expectativa, ansiedade e curiosidade.

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