Os Vizinhos de Cima

3 09 2009

Sabe aquele vizinho a quem a gente sempre recorre para pedir um pouco de açúcar ou sal quando falta, mas não perde a oportunidade de colocar a culpa quando tem vazamento ou barulho? Essa é a relação entre Dinamarca e Suécia.

São países irmãos, com culturas e costumes parecidíssimos. Os idiomas tem uma diferença de sotaque, praticamente, sendo tão próximas uma da outra como portugês e espanhol.

Os intercambistas que estavam em Bornholm passaram uma semana na Suécia, no mês de maio, para um mini-intercâmbio. Uma forma de conhecer mais um pouco a Escandinávia, e abrir ainda mais a cabeça em relação ao seu país e cultura de origem.

Fomos para a cidade de Sölvesborg, na região de Kristianstad, sul da Suécia. Com cerca de 15 mil habitantes, é uma cidade às margens do Mar Báltico, e muito semelhante ao que eu já estava acostumado a ver na Dinamarca.

A primeira providência da minha nova família, com a qual eu iria passar uma semana, foi me emprestar uma bicicleta para eu poder conhecer melhor a cidade. O mais engraçado é que esse foi o primeiro ato de todas as famílias suecas que nos receberam naquela semana.

Nesta semana, fomos ao jardim de infância e às escolas primária e secundária da cidade, para fazer apresentações sobre os nossos países e conhecer um pouco do sistema educacional sueco. Nada muito diferente da Dinamarca, a não ser que, no corredor ao lado do bebedouro, há uma barraquinha de leite que os alunos podem se servir à vontade nos intervalos.

No fim de semana, todos os intercambistas e os irmãos suecos que puderam ir, viajaram para um acampamento às margens de um lago perto de Sölvesborg.

Saímos na sexta-feira, logo após o almoço, e chegamos no acampamento a tempo de montar as barracas e fazer um pequeno teste na água, para aprender a remar e controlar a canoa. Fiz dupla com o André, o outro brasileiro da excursão.

No sábado, o dia amanheceu fantástico, com um céu muito azul e ventando um pouco. Mas no início nem percebemos esse vento, e até gostamos pois ele estava a favor e nos ajudava a remar. Todos cantando, brincando muito, tentando molhar uns aos outros, uma festa só. Fizemos um transborde para evitar uma cachoeira, e continuamos a remar até o local onde almoçamos e descansamos um pouco, para inicar o retorno para o acampamento.

A volta começou com aquela mesma sensação de pedalar contra o vento, nada grave. Até o momento do transborde para o primeiro lago, quando começou uma verdadeira tempestade! Como éramos aprendizes na arte de remar, imagine a dificuldade que passamos: o cansaço aumentando, o vento contra se transformou numa tempestade, e o desespero de achar que aquilo ali iria acabar mal.

Decidimos remar junto à margem, em caso de necessidade. Porém, não paramos nem um momento, apesar de muitas vezes os braços já não responderem aos impulsos cerebrais. Depois de muito tempo, conseguimos chegar ao lugar do acampamento, exaustos e encharcados, porém com uma sensação única de vitória, de conquista, de superação. Os outros canoístas começaram a chegar somente duas horas depois, quando a tempestade diminuiu e somente a chuva atrapalhava. Alguns tiveram que ser resgatados nas margens do lago…

Dessa forma passei por uma das maiores provas da minha vida, mas conheci pessoalmente mais uma paisagem típica de cartão-postal europeu: canoagem em um lago sueco!





Novidades a mil por hora

4 11 2008

O ônibus que pegamos na estação central de Copenhaguen foi até o porto e entrou no ferryboat juntamente com os outros carros que esperavam no embarque. Eu que nunca tinha visto um navio tão de perto, fiquei pasmo com o tamanho daquele monstro de metal. Cabiam uns 100 carros ali, e o navio devia ter uns 4 ou 5 andares. Uns 100 metros de comprimento por 50 de largura e uns 20 de altura.

Ferryboat para Bornholm

Ferryboat para Bornholm

A primeira perna da viagem era entre Copenhaguen e Malmö, na Suécia. Pertinho, não deu tempo nem para conhecer todo o navio. Ficamos os 5 intercambistas no deck, tentando diminuir nossa ansiedade trocando idéias, impressões e expectativas sobre a família, a escola e aquele ano todo que estaria por vir.

Voltamos ao ônibus e seguimos por via terrestre até Ystad, onde entramos em outro ferryboat com destino a Rønne. Essa parte da viagem já foi mais longa, e deu para passear pelo navio e aumentar ainda mais a ansiedade. Será que vou reconhecer minha família? Será que eles vão me reconhecer? Será que eles estarão me esperando no porto? Será que vamos conseguir conversar, que eu vou entender o inglês deles e eles o meu?

Chegamos a Bornholm e nossas famílias estavam lá, nos esperando no porto. Muita expectativa, vontade dos dois lados de perguntar tudo, de saber tudo, de se conhecer assim, à primeira vista.

Christa e Vagn Ipsen, meus pais dinamarqueses

Christa e Vagn Ipsen, meus pais dinamarqueses

Meus pais dinamarqueses, Vagn e Christa Ipsen, eram extremamente simpáticos! Ele, 59 anos, técnico de máquinas automáticas de ordenha e que falava apenas dinamarquês e bornholmsk, um dialeto da ilha. Ela, 52 anos, secretária da escola onde eu iria estudar, falava inglês e estudava polonês, além do dinamarquês e do bornholmsk. Moravam numa fazenda no subúrbio da cidade de Årsballe, uma vilazinha de 60 casas a 12 quilômetros da capital. Um trajeto de 15 minutos de carro, onde foi travado o primeiro diálogo dessa nova relação familiar, tendo a Christa como intérprete. Já anoitecia (devia ser quase 11 da noite) e minha cabeça estava a mil por hora, juntando com o cansaço de quase 12 horas de viagem, o papo não estava rendendo muito. Cheguei na casa com vontade somente de tomar um bom banho e dormir um bocado.

Na manhã seguinte, domingo 31 de julho, a conversa fluiu muito melhor durante o café da manhã. Uma refeição comum, com café, leite, cereal, pão francês, manteiga, geléia, frutas. Entreguei os presentes brasileiros que levei: um livro com fotografias do Brasil, alguns enfeites para a casa com pedras semipreciosas e peças de artesanato. Foram apresentadas as regras da casa: cada um cuida do seu quarto, na limpeza, arrumação e troca de roupa de cama. As roupas sujas deveriam ser colocadas num cesto na área de serviço. A louça era dividida, um lava e o outro seca. O Vagn me ensinaria a aparar a grama do jardim e podar a cerca-viva da entrada. Quando chegasse o frio me ensinariam a ligar o aquecedor. Para o correio, é só deixar a carta já selada em cima do móvel na entrada da casa para que eles pudessem levar quando deixassem a correspondência do dia.

Apesar da maioria da população da Dinamarca se declarar luterana, são poucos os que realmente vão à igreja todos os domingos. E os Ipsen eram praticantes! Para mim, que na época era católico praticante, foi mais uma excelente forma de conhecer melhor os costumes e cultura dinamarquesas em todas as suas variações. Naquele domingo fomos ao culto da vila, e fui muito bem recebido por todos, que apesar de se manterem um pouco distantes, também estavam ansiosos com a minha chegada.

Na volta do culto, almoçamos comida típica dinamarquesa: fatias de rugbrød (pão preto) com pålæg (nome dado a qualquer ingrediente que se põe sobre o pão: presunto, salame, queijo, patê de fígado de porco e por aí vai…) Depois do almoço fui desarrumar a mala e deixar o meu quarto em ordem. A primeira providência, obviamente, foi pendurar a bandeira brasileira na parede!

À tarde, conseguimos uma bicicleta emprestada, modelo antigo, freio contra-pedal, dinamômetro para a luz da frente… mal sabia eu que aquela magrela seria uma grande companheira durante todo o ano!

Na segunda-feira, primeiro dia útil, Christa me levou à prefeitura local para eu me regularizar. Recebi um cartão com um número de registro, tipo um CPF, que seria minha identificação no país durante aquele ano para tudo que precisasse: escola, hospitais, médicos, carteirinha de transporte público, etc. Fui também ao banco trocar alguns dólares por coroas dinamarquesas.

Na volta, passamos na casa do chefe de escoteiros do grupo mais próximo, na cidade de Klemensker (cerca de 5 quilômetros de onde eu morava). Klemensker também seria onde eu estudaria, então seria a cidade de referência durante o intercâmbio. À tarde, um repórter do jornal local me ligou para agendar uma entrevista. Me senti famoso!!!

À noite, a conversa continuou com várias perguntas de ambos os lados sobre cultura, tradições e costumes dos respectivos países, e demos um passo muito importante: combinamos a forma que eu iria começar a aprender a falar dinamarquês. Primeiro, eles colocariam post-it com o nome dos móveis e coisas na casa, e aos poucos iriam colocando palavras no vocabulário cotidiano. De qualquer forma, se eu quisesse manter uma conversa sem intérprete com o Vagn, teria que aprender o idioma com alguma agilidade. E o mais importante: não ter medo de tentar falar dinamarquês, mesmo que estivesse completamente errado! Todos sabem que sou estrangeiro e que estou tentando aprender, então com certeza iriam colaborar no meu aprendizado.

Foram apenas dois dias, mas a primeira impressão não poderia ser melhor: fui recebido como um membro da família e me sentia bem ali. Não senti saudades do Brasil como acontecia durante o language camp. E ainda faltava uma semana para as aulas começarem!!!

Mas o melhor é que eu nem desconfiava o quanto esse ano seria espetacular!





Longe de casa…

29 10 2008

Naquela época, a Varig tinha um vôo direto que saía de São Paulo, fazia escala no Rio, em Londres e pousava em Copenhaguen. E já atrasava um bocado… na minha viagem, foi uma hora de atraso.

Nunca tinha voado, e talvez por influência dos comentários gerais sobre comidas de avião, achei todas as três refeições – jantar, café da manhã e almoço – horríveis. Mas achei muito legal ver as nuvens, a imensidão do Oceano Atlântico, as cidades pequenininhas lá de cima, conseguir visitar a cabine dos pilotos (ainda era permitido) e aquela bagunça que só um tanto de adolescente que sai de casa pela primeira vez consegue fazer.

Pousamos em Copenhaguen às 18h30, hora local. Sol alto, calor forte… o primeiro mito acabava de cair por terra: quem disse que a Dinamarca era um país frio? Devia estar uns 25 graus naquele fim de tarde.

Os estudantes de todo o mundo que chegam à Dinamarca pelo AFS ficam por uma semana em um language camp, um acampamento de ambientação em que têm o primeiro contato com o país, sua cultura, sua comida, seus costumes, tradições, etc… é uma excelente forma de evitar um choque cultural muito grande. Fomos divididos conforme a região do país em que iríamos passar o ano, e seguimos para os acampamentos. Meu grupo ficou em uma escola na cidade de Smørum, na grande Copenhaguen. Tinha gente do mundo todo:  Brasil, Chile, Colômbia, Venezuela, México, Estados Unidos, Canadá, Hungria, Nova Zelândia, Austrália, Turquia, Letônia, Barbados, Hong Kong, Tailândia, Japão. Entre os orientadores dinamarqueses, havia um que fez intercâmbio no Brasil e falava português fluentemente, o que facilitaria bastante em caso de emergência.

Estudantes do mundo inteiro no Language Camp

Estudantes do mundo inteiro no Language Camp

A primeira lição do idioma foi como pedir e agradecer, durante um jantar típico de batatas cozidas com um hambúrguer dinamarquês chamado frikadeller. Antes de tentar dormir, um bom banho (gelado, diga-se de passagem) para ver se ajudava a passar os efeitos do fuso horário. Mas para piorar a situação, veio o primeiro choque cultural: ver o sol se pôr às 22h30 e nascer às 4 da manhã. Quem consegue dormir com essa claridade?

Durante o acampamento, os estudantes ajudam em todas as tarefas: varrer a escola, preparar as refeições, lavar a louça. Já era um aprendizado, pois na Dinamarca todos ajudam nas tarefas de casa e não existe essa história de diarista ou empregada doméstica.

Passamos a semana tendo aulas de idioma dinamarquês, cozinhando comidas típicas, aprendendo músicas folclóricas, e vários bate-papos sobre religião, geografia, história, sistema educacional, tradições familiares, costumes, cultura, e várias situações com que poderíamos nos deparar naquele ano que começava ali.

Comendo cereja direto do pé

Comendo cereja direto do pé

Foi lá pelo terceiro dia, em uma caminhada que fizemos nas redondezas da escola, que me caiu a ficha de estar na Europa: vi uma paisagem típica de cartão-postal, com um laguinho, patos nadando, muitas flores e uma cerejeira carregada de frutas. Comer cereja tirada do pé, eita se o povo de Montes Claros me visse agora….

Todos no ônibus indo para a canoagem

Todos no ônibus indo para a canoagem

Fizemos também um passeio típico de verão europeu: uma canoagem. Pegamos uns três ônibus – sem roleta e pagando uma só passagem – até uma grande lagoa onde se podia alugar as canoas, e fomos três pessoas por canoa. Apanhamos bastante no início, mas depois pegamos o ritmo e foi muito divertido, com direito a virada de barcos e jogar água nos outros de sacanagem. Neste mesmo dia, fomos a uma praia e eu era bobo até na hora de escrever na agenda, já que está anotado: “o pessoal daqui é liberado!” Certamente eu vi um bocado de mulher fazendo topless, o que é normal em praias européias durante o verão, e fiquei achando aquilo o máximo mas minha timidez não iria me deixar escrever o que eu realmente queria dizer…

Paisagem da canoagem

Paisagem da canoagem

Antes do intercâmbio eu era um cara extremamente tímido, CDF, magricela e com óculos fundo-de-garrafa. Minha auto-estima não era das melhores, e já no terceiro dia percebi que tinha que ser muito mais extrovertido e corajoso se quisesse me dar bem naquela aventura. Tá escrito lá, na minha agenda, que a partir daquele dia 26 de julho de 1994 eu deveria mudar se quisesse chegar a algum lugar!

No quinto dia bateu a tristeza pela primeira vez, quando tivemos que escrever uma carta para a família que iria nos receber. Chorei escondido e, pela primeira vez desde que saí do Brasil, me perguntei o que estava fazendo ali. Ser intercambista é esse turbilhão de emoções, contar os dias que faltam pra voltar ao mesmo tempo que conta-se os dias que faltam pra ficar. Logo no dia seguinte a tristeza passou, pois uma família que tinha hospedado um intercambista foi conversar conosco para contar sua experiência, e eu fiquei muito empolgado, pois além de adorar as histórias do pessoal entendi quase tudo o que falaram em inglês.

Na última noite de acampamento, houve uma festa onde cada país apresentou uma esquete sobre seus costumes, depois um belo jantar e música até tarde.

No dia seguinte, as famílias do pessoal que iria ficar em Copenhaguen vieram buscá-los na escola. Eu e mais 5 estudantes teríamos que continuar a viagem, afinal ficaríamos hospedados em Bornholm, uma pequena ilha situada no meio do Mar Báltico (nem parece que ainda é Dinamarca), e ainda teríamos que pegar dois ferryboats e um ônibus cruzando o sul da Suécia.

Bornholm no canto direito do mapa...

Bornholm no canto direito do mapa...

Nossas famílias nos esperavam no porto de Rønne, a capital da ilha. Dali pra frente dependia só de mim…

André (Brasil), Nayelli (México), Kitty (Hungria), Sally (Austrália) e eu no ferryboat com destino a Bornholm

André (Brasil), Nayelli (México), Kitty (Hungria), Sally (Austrália) e eu no ferryboat com destino a Bornholm





Sempre em frente!

28 07 2008

Vegvisir (veja o caminho) é a “bússola” viking. Uma runa de proteção, derivada de Ægishjálmr – o elmo de Awe – o símbolo de proteção mais popular da era viking.

Vegvisir tem o poder de proteger as pessoas que viajam por águas desconhecidas, e deve ser desenhado com seu próprio sangue em um pedaço de couro. Antes de sair para as jornadas, deve ser pressionado na testa, entre os olhos, para que o viajante não se perca no seu caminho.

Folclore e superstições à parte, me identifico muito com esse símbolo. Primeiro porque sou  um viajante de águas desconhecidas, segundo porque sou um admirador da cultura viking.

Assim, nada melhor do que batizar o blog com a proteção dos deuses nórdicos.