Casos do Cotidiano

19 03 2009

Para voltar ao ritmo, nada como contar algumas passagens interessantes do meu dia-a-dia na Dinamarca. 

Durante meu intercâmbio, decidi que não iria ligar para as pessoas no Brasil, para não agravar as saudades. Dessa forma, os correios eram a única forma de contato com minha família e amigos. Demorava cerca de uma semana para responder as cartas que recebia, e para minha mãe enviava uma correspondência por semana (um dia ainda vou reunir essas cartas num livro ou blog). Cheguei a receber alguns telefonemas, mas já nos últimos meses do intercâmbio, quando a saudade não apertava tanto assim. Por causa dessa decisão de usar somente cartas, a hora do carteiro passar em casa era um dos momentos mais aguardados do dia. E logo no dia seguinte ao meu aniversário, eis que nenhuma correspondência chegou. À noite, a notícia desoladora: os correios haviam entrado em greve. Logo no meu aniversário?! Tive que esperar uma semana para receber as lembranças das pessoas mais queridas que estavam longe.

A minha família não confirmava o famoso estereótipo dos europeus não gostarem de banho. Todos tomavam banho diariamente, até mesmo com toda a preguiça que o inverno dava na gente. Só que meu pai dinamarquês perdia a noção às vezes. Como já falei anteriormente, ele trabalhava com manutenção de máquinas de ordenha. Passava o dia inteiro em estábulos, e chegava em casa fedendo a gado. Só que, em vez de ir tomar banho de imediato, sentava-se à mesa para o jantar. Havia dias que eu fazia até vômito, e ele não se tocava. Ainda bem que o cheiro também incomodava a Christa, e ela mandava o Vagn direto para o banho.

Aqui no Brasil, eu era sempre um dos últimos a ser escolhido na divisão dos times, mas lá na Dinamarca eu era um dos primeiros… muito mais pela nacionalidade do que pela habilidade em si, apesar de que eu era um dos melhores da turma, para se ter uma ideia. Um dia, numa jogada “sensacional”, a bola veio alta e fui ajeitá-la com o peito. Como percebi que não conseguiria amortecê-la devidamente, coloquei a mão para ajudar. A intimidade com a bola era tão grande que ela bateu certinho no meu dedo e deslocou o coitado. Não deu nem pra despistar, pois a dor era enorme. Parei no médico para voltar o dedo pro lugar e colocar uma tala por 15 dias.

Todo esse atendimento médico foi gratuito. A escola também era pública, e todos os alunos são obrigados a visitar o dentista a cada seis meses. Como estudante de intercâmbio, eu tinha direito a praticamente tudo que um cidadão dinamarquês tem, apesar de não precisar pagar os cerca de 50% dos rendimentos em impostos como eles fazem. Esse é o estado de bem-estar social dinamarquês, que fez o país tornar-se um paraíso para refugiados das mais diversas nacionalidades, e gera tanta polêmica, discussão e preconceito no país. Os dinamarqueses pagam os impostos e todos usufruem de médicos, escolas, estradas, salário-desemprego, assistência social.

Durante o tempo que fiquei lá, era praticamente uma obsessão procurar por produtos “Made In Brazil”. O primeiro que vi foi um prato de cerâmica, nada de mais. Depois vi sapatos, frutas do Vale do São Francisco (uma manga custava cinco dólares!!!), e no restaurante mais famoso de Bornholm os talheres eram da Tramontina.

A Dinamarca não é tão gelada como costumamos imaginar. A proximidade com o mar (nenhum dinamarquês vive a mais de 200 quilômetros do oceano), a água ameniza e equilibra o clima. Saí de Montes Claros no inverno, quando a temperatura chega aos 20°C, e cheguei na Dinamarca no meio do verão, com uma temperatura de… 25°C. Foi ótimo, facilitou bastante a adaptação. A temperatura mais baixa que experimentei por lá foi -10°C. Quando voltou a fazer calor, e a temperatura chegou aos 15°C na primavera, eu já estava vestindo bermuda e com vontade de tomar sorvete!!!!

A tradicional foto da primeira neve, com minha casa ao fundo

A tradicional foto da primeira neve, com minha casa ao fundo

O dia mais curto do ano foi 21/12. O sol nasceu por volta de 9h30 da manhã, quando eu já estava na escola, e se pôs por volta de 15h, quando eu ainda não tinha saído da aula. E ainda estava nublado, como a maior parte do inverno. A primeira neve que vi na minha vida caiu no dia 12 de novembro, mas foi só para conhecer mesmo. Na manhã seguinte já havia derretido. Não nevou no Natal, mas no dia 26 caiu uma boa dose, que chegou a uns 5 centímetros e durou dois dias. Não deu pra andar de trenó, patinar nos lagos ou fazer boneco de neve, mas boas guerras de bolas de neve foram travadas na escola.

Minha casa coberta de neve

Minha casa coberta de neve

Raro dia de sol com a paisagem ainda cheia de neve

Raro dia de sol com a paisagem ainda cheia de neve

Eu sempre era convidado pelos professores a fazer palestras sobre o Brasil nas outras séries. Isto me proporcionou, inclusive, a fazer algumas palestras em Grupos de Terceira Idade, e faturar uma graninha. Mostrar que o Brasil não era só café, futebol e carnaval, e além de tudo ganhar por isso, era muito bom! Além disso, como todo estudante de intercâmbio, consegui alguns bicos para ganhar uma graninha extra: na biblioteca da escola, colocando os livros de volta nas prateleiras ou arrumar o estoque de lenha para o inverno nas casas dos professores.

São alguns detalhes do dia-a-dia que podem até passar despercebidos, mas que no final fizeram toda a diferença no intercâmbio.





Pessoas de lá e de cá

1 12 2008

Os meus pais dinamarqueses tinham três filhos, que já não moravam em casa. O mais velho, Jakob, tinha seus trinta e poucos anos, era casado com Rikke, e moravam em uma cidade na Grande Copenhaguen. Por coincidência, a filha do meio também se chamava Rikke, estava próxima dos 30 anos e era casada com Per, e também moravam em Copenhaguen. Annie, a caçula, tinha 25 anos e estudava na universidade da cidade de Århus. Sempre recebíamos visitas deles, alternadamente, mas somente no Natal a família conseguiu se reunir completamente.

Christa e Vagn tinham também uma grande amiga, companheira para todas as horas: Juliana, uma refugiada da Guerra da Iugoslávia e suas duas filhas, Vera, de 7 e Andrea, de 5. Tinham uma experiência de vida enorme, e muita história para contar. E as crianças eram muito inteligentes, pois tão novas e já falavam 4 línguas: sérvio (por causa do pai), húngaro (por causa da mãe), inglês (por causa da necessidade) e dinamarquês (por causa da escola). Juliana era um grande exemplo do Estado de Bem-Estar Social da Dinamarca, que abriga indistintamente seus cidadãos e os refugiados que escolhem o país como lar. Recebia seguridade social, e suas filhas tinham direito a educação e saúde pública como qualquer cidadão dinamarquês. 

Na escola, me relacionava bem com todos, alunos e professores. Sempre era convidado a falar sobre o Brasil nas outras turmas, em inglês no início e em dinamarquês após aprender o idioma. Consegui até descolar um “bico” na biblioteca da escola, organizando os livros nas prateleiras e faturando uma graninha extra.

No Grupo Escoteiro, também fiz amigos incríveis, principalmente a Karina, que adorou a idéia do intercâmbio e resolveu receber um estudante de intercâmbio em sua casa no ano seguinte. Por coincidência, seu “irmão”, também foi brasileiro. Logo depois, ela resolveu ser intercambista e passou um ano na Venezuela. Em 2004, aproveitou uma visita à sua família venezuelana e deu uma esticadinha ao Brasil, visitando seu “irmão” em São Paulo e a mim no Rio de Janeiro. Karina gostou tanto da sua experiência de intercâmbio que trabalha até hoje no AFS da Dinamarca.

Para reforçar o nosso aprendizado de dinamarquês, o AFS disponibilizou um professor para os intercambistas. Aproveitando a turma, o Rotary e a Baltic Bridge também inscreveu seus estudantes no curso, aumentando a torre de babel em alguns países: além do Brasil, Letônia, México, Austrália, Tailândia, Hungria e Turquia, juntaram-se a nós estudantes dos Estados Unidos e da Estônia. Dessa forma, uma vez por semana, todos os intercambistas da ilha se reuniam para conversar e trocar experiências, muito mais do que realmente estudar a língua.

Assim, minha agenda estava sendo preenchida com muitas atividades: Grupo de Jovens na terça-feira, escotismo na quarta, aula de dinamarquês na quinta, escola de segunda a sexta das 7h às 15h, em média. Bico na biblioteca pelo menos duas vezes por semana, e muita bicicleta para todos os lados!

Ao mesmo tempo que procurava me adapatar a essa nova realidade, uma grande ajuda apareceu de um lugar inesperado: a Denise, que antes da minha viagem era a paixão adolescente de todos os meninos da turma “lá da rua”, fez intercâmbio nos Estados Unidos na mesma época, e passamos a trocar cartas praticamente toda semana. Conversas sobre situações vividas, experiências adquiridas, os diversos sentimentos por que passa um intercambista, todas essas semelhanças nos aproximou de uma forma que nos considerávamos praticamente irmãos naquele período.

Com a popularização do Facebook no Brasil, comecei a reencontrar muitas dessas pessoas que foram inesquecíveis no meu intercâmbio. A parte mais divertida é descobrir que não mudaram quase nada, mesmo 15 anos depois. Geralmente, o que mudou foi o número de herdeiros que trouxeram ao mundo. Eu continuo na mesma…