Novidades a mil por hora

4 11 2008

O ônibus que pegamos na estação central de Copenhaguen foi até o porto e entrou no ferryboat juntamente com os outros carros que esperavam no embarque. Eu que nunca tinha visto um navio tão de perto, fiquei pasmo com o tamanho daquele monstro de metal. Cabiam uns 100 carros ali, e o navio devia ter uns 4 ou 5 andares. Uns 100 metros de comprimento por 50 de largura e uns 20 de altura.

Ferryboat para Bornholm

Ferryboat para Bornholm

A primeira perna da viagem era entre Copenhaguen e Malmö, na Suécia. Pertinho, não deu tempo nem para conhecer todo o navio. Ficamos os 5 intercambistas no deck, tentando diminuir nossa ansiedade trocando idéias, impressões e expectativas sobre a família, a escola e aquele ano todo que estaria por vir.

Voltamos ao ônibus e seguimos por via terrestre até Ystad, onde entramos em outro ferryboat com destino a Rønne. Essa parte da viagem já foi mais longa, e deu para passear pelo navio e aumentar ainda mais a ansiedade. Será que vou reconhecer minha família? Será que eles vão me reconhecer? Será que eles estarão me esperando no porto? Será que vamos conseguir conversar, que eu vou entender o inglês deles e eles o meu?

Chegamos a Bornholm e nossas famílias estavam lá, nos esperando no porto. Muita expectativa, vontade dos dois lados de perguntar tudo, de saber tudo, de se conhecer assim, à primeira vista.

Christa e Vagn Ipsen, meus pais dinamarqueses

Christa e Vagn Ipsen, meus pais dinamarqueses

Meus pais dinamarqueses, Vagn e Christa Ipsen, eram extremamente simpáticos! Ele, 59 anos, técnico de máquinas automáticas de ordenha e que falava apenas dinamarquês e bornholmsk, um dialeto da ilha. Ela, 52 anos, secretária da escola onde eu iria estudar, falava inglês e estudava polonês, além do dinamarquês e do bornholmsk. Moravam numa fazenda no subúrbio da cidade de Årsballe, uma vilazinha de 60 casas a 12 quilômetros da capital. Um trajeto de 15 minutos de carro, onde foi travado o primeiro diálogo dessa nova relação familiar, tendo a Christa como intérprete. Já anoitecia (devia ser quase 11 da noite) e minha cabeça estava a mil por hora, juntando com o cansaço de quase 12 horas de viagem, o papo não estava rendendo muito. Cheguei na casa com vontade somente de tomar um bom banho e dormir um bocado.

Na manhã seguinte, domingo 31 de julho, a conversa fluiu muito melhor durante o café da manhã. Uma refeição comum, com café, leite, cereal, pão francês, manteiga, geléia, frutas. Entreguei os presentes brasileiros que levei: um livro com fotografias do Brasil, alguns enfeites para a casa com pedras semipreciosas e peças de artesanato. Foram apresentadas as regras da casa: cada um cuida do seu quarto, na limpeza, arrumação e troca de roupa de cama. As roupas sujas deveriam ser colocadas num cesto na área de serviço. A louça era dividida, um lava e o outro seca. O Vagn me ensinaria a aparar a grama do jardim e podar a cerca-viva da entrada. Quando chegasse o frio me ensinariam a ligar o aquecedor. Para o correio, é só deixar a carta já selada em cima do móvel na entrada da casa para que eles pudessem levar quando deixassem a correspondência do dia.

Apesar da maioria da população da Dinamarca se declarar luterana, são poucos os que realmente vão à igreja todos os domingos. E os Ipsen eram praticantes! Para mim, que na época era católico praticante, foi mais uma excelente forma de conhecer melhor os costumes e cultura dinamarquesas em todas as suas variações. Naquele domingo fomos ao culto da vila, e fui muito bem recebido por todos, que apesar de se manterem um pouco distantes, também estavam ansiosos com a minha chegada.

Na volta do culto, almoçamos comida típica dinamarquesa: fatias de rugbrød (pão preto) com pålæg (nome dado a qualquer ingrediente que se põe sobre o pão: presunto, salame, queijo, patê de fígado de porco e por aí vai…) Depois do almoço fui desarrumar a mala e deixar o meu quarto em ordem. A primeira providência, obviamente, foi pendurar a bandeira brasileira na parede!

À tarde, conseguimos uma bicicleta emprestada, modelo antigo, freio contra-pedal, dinamômetro para a luz da frente… mal sabia eu que aquela magrela seria uma grande companheira durante todo o ano!

Na segunda-feira, primeiro dia útil, Christa me levou à prefeitura local para eu me regularizar. Recebi um cartão com um número de registro, tipo um CPF, que seria minha identificação no país durante aquele ano para tudo que precisasse: escola, hospitais, médicos, carteirinha de transporte público, etc. Fui também ao banco trocar alguns dólares por coroas dinamarquesas.

Na volta, passamos na casa do chefe de escoteiros do grupo mais próximo, na cidade de Klemensker (cerca de 5 quilômetros de onde eu morava). Klemensker também seria onde eu estudaria, então seria a cidade de referência durante o intercâmbio. À tarde, um repórter do jornal local me ligou para agendar uma entrevista. Me senti famoso!!!

À noite, a conversa continuou com várias perguntas de ambos os lados sobre cultura, tradições e costumes dos respectivos países, e demos um passo muito importante: combinamos a forma que eu iria começar a aprender a falar dinamarquês. Primeiro, eles colocariam post-it com o nome dos móveis e coisas na casa, e aos poucos iriam colocando palavras no vocabulário cotidiano. De qualquer forma, se eu quisesse manter uma conversa sem intérprete com o Vagn, teria que aprender o idioma com alguma agilidade. E o mais importante: não ter medo de tentar falar dinamarquês, mesmo que estivesse completamente errado! Todos sabem que sou estrangeiro e que estou tentando aprender, então com certeza iriam colaborar no meu aprendizado.

Foram apenas dois dias, mas a primeira impressão não poderia ser melhor: fui recebido como um membro da família e me sentia bem ali. Não senti saudades do Brasil como acontecia durante o language camp. E ainda faltava uma semana para as aulas começarem!!!

Mas o melhor é que eu nem desconfiava o quanto esse ano seria espetacular!

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Pequi

18 08 2008

Em dezembro e janeiro, o cheiro de pequi invade Montes Claros. Ambulantes com seus carrinhos-de-mão vendendo a iguaria pelas ruas do centro, o Mercado Central cheio de gente descascando o fruto, e aquele cheiro característico abrindo o apetite de uns, e embrulhando o estômago de outros.

José Felipe Ribeiro

Pequi descascado - foto: José Felipe Ribeiro

Coitados dos goianos, que acham que aquilo que tem por lá é pequi. Nunca viram os daqui, do tamanho de bolinhas de tênis… para quem não conhece, é assim: uma casca verde, grossa e rançosa, que quando cortada longitudinalmente revela uma polpa amarelo-ouro, carnuda… cozida, é um acontecimento para os apreciadores da culinária do cerrado.

O pequi é utilizado numa enorme variedade de pratos, além do mais famoso de todos: o arroz-com-pequi. Coloca-se no feijão, ou com a polpa se faz doce, pizza, picolé, sorvete. Ou simplesmente cozido.

Almoço da avó com pequi separado

Almoço da avó com pequi separado

Para se comer, tem que pegar com a mão e roer a polpa até o caroço. Não existe comer pequi com talheres ou com educação, o negócio é chegar ao final com os dedos e metade da cara amarela!!! Mas nunca, NUNCA morda o pequi. Sua castanha é uma armadilha, pois dentro há incontáveis minúsculos espinhos, que povoam a boca, língua e garganta dos mais incautos ou mal-orientados. Tem gente que manda morder de sacanagem, e depois tem que levar a vítima para o hospital…

Alguns, como eu, não gostam de roer pequi. Mas gostam do gostinho (?!?!) que ele deixa na comida. Por isso preferem só o arroz de pequi, ou o óleo de pequi na comida. Óleo mesmo, e se bobear vai virar até biodiesel!!!

Quem come pequi se lembra por uns 3 dias, no mínimo! Invariavelmente você vai arrotar o pequi, por mais educado que seja. É natural, é do ser humano, é do pequi.