Agenda

9 10 2008

Eu sempre tive a memória pouco confiável. Esqueço até o aniversário dos meus pais, se bobear. Não lembro de coisas que disse ou que fiz, e isso é bom e ruim, dependendo da circunstância.

Na época do colégio, ganhávamos uma agenda no começo do ano, para ajudar àqueles que, como eu, tinham certa dificuldade em se lembrar dos seus poucos compromissos: estudos, trabalhos, provas. E para as meninas trocarem recadinhos e confidências entre si, atiçando a curiosidade dos meninos. Até linguagem codificada elas inventavam!

Desta época, guardei apenas duas agendas pra posteridade, exatamente as de 1994 e 1995, quando fiz o intercâmbio. Eu sabia que elas seriam úteis para mim algum dia, quando eu precisasse lembrar de alguns detalhes da experiência que mudou a minha vida.

Eis que meu scanner chegou e eu não tenho mais desculpas para atrasar os posts sobre a Dinamarca, então resolvi espanar a poeira dessas agendas, reler meus rascunhos para refrescar minhas lembranças e escrever os detalhes que me marcaram naquela época!

Quanta surpresa! Confesso que se não tivesse certeza de que fui eu que escrevi naquelas páginas, ficaria na dúvida do dono daqueles garranchos. Como recebi a agenda no começo do ano e só viajei em julho, teve um bom primeiro semestre repleto de anotações. Não acreditei no quanto eu era organizado, anotava de tudo: reunião dos escoteiros; reunião do grupo de jovens; datas de aniversários COM NOME E ENDEREÇO COMPLETO das pessoas, para enviar postais (boa parte dessas pessoas eu não faço a menor idéia de quem sejam 🙂 ); provas, trabalhos, estudar, fazer dever-de-casa e outras coisas da escola; pegar emprestado e emprestar cadernos e livros; ligar pra não-sei-quem; festas e encontros; jogos de futebol do Cruzeiro e da Seleção Brasileira COM OS RESULTADOS; viagens, acampamentos, passeios; comprar ou pagar não-sei-o-quê…

Estou me divertindo, me lembrando de cada coisa… naquela época o monstro da inflação ainda tinha 7 cabeças, e o nosso dinheiro ainda era o Cruzeiro Real (alguém se lembra disso?). Tinha alguns valores anotados na minha agenda, e é engraçado saber que o valor da mensalidade do curso de inglês que eu fazia é igual a todo o meu patrimônio atual…

Por falar em curso de inglês, fiz um intensivão particular no CCAA por 4 meses, pra tentar não fazer (tão) feio no intercâmbio com meu inglês de colégio. No final, só aprendi mesmo a falar inglês na prática, lá na Dinamarca, antes de aprender o próprio dinamarquês.

Revi as datas exatas em que recebi as cartas do AFS, a minha família dinamarquesa, e que enviei os formulários do intercâmbio e do visto ou que fui no Juizado de Menores pegar a autorização dos meus pais pra viajar, na Delegacia de Ensino para negociar como seriam meus estudos no retorno.

Descobri que fui a Petrolina visitar meu irmão antes de ir pra Dinamarca, e deu até vontade de escreve sobre lá antes da série dinamarquesa, já que estou seguindo uma ordem cronológica. Mas já enrolei demais e vou cometer esse pequeno deslize histórico.

Descobri que eu escrevia cartas… e provavelmente as recebia também! E que eu era um católico praticante!

Me lembrei que todos os últimos preparativos foram feitos em Brasília: comprei dólares e Traveller Cheques, uma camisa da seleção, presentes e uma bandeira do Brasil – que me acompanha até hoje em todas as minhas viagens de férias no exterior.

E que voltei pra Montes Claros antes da final da Copa do Mundo, a tempo de unir uma das despedidas à festa depois da isolada do Baggio. E quando vi os dias exatos de todas as festas de despedida que fizeram pra mim, um filme passou pela memória.

Até que no dia 20 de julho peguei o ônibus para o Rio de Janeiro e no dia seguinte peguei o vôo, e voltamos ao mesmo ponto do post A Viagem da Viagem…