Planalto Central

25 08 2008

Cheguei em Brasília aos dois anos de idade, em 1980. Pela pouca idade, não me lembro de muita coisa. Mas há alguns flashes interessantes: os barquinhos de papel na enxurrada; a descoberta da minha miopia; o medo da carranca que ficava atrás da porta; a vez que fiquei com a cabeça presa debaixo do armário quando fui buscar uma bolinha que tinha caído lá embaixo; as chuvas de granizo; o primeiro amor pueril; o primeiro grande amigo; o mega-apartamento do final da Asa Sul; os passeios no Lago Sul, para ver as embaixadas dos países e tentar flagrar algum carrão importado, coisa rara naquela época.

A separação dos meus pais ocorreu nesse período. Me lembro de quando meu pai morava num quarto de hotel e buscava a mim e ao Claudio nos fins de semana para jogar bola, ir para o Clube da Água Mineral quando ainda era bem freqüentado, e almoçar num rodízio de carne.

Até que minha mãe resolveu voltar para Montes Claros quatro anos depois, levando a mim e ao Claudio. Eu com 6 anos e ele com 10. Os outros 4 irmãos mais velhos ficaram em Brasília, assim como meu pai. Voltava sempre nas férias. Meu irmão mais velho morou em Valparaíso, no Cruzeiro e em Luziânia, cidades do entorno que tem como função básica servir de dormitório para os trabalhadores da capital. Minha mãe chegou a morar em Luziânia por um tempo também, mas fui lá poucas vezes, e nem tenho muito a falar da cidade.

Brasília é uma cidade especial, e esse adjetivo não é necessariamente um elogio. Parece feita de lego, com sua arquitetura moderna, suas ruas e avenidas largas e as regiões definidas: setor de hotéis, setor de hospitais, setor de mansões, setor habitacional, setor de órgãos do governo… seca e poeirenta no inverno, quente e tempestuosa no verão. O transporte público é ridículo, praticamente inexistente. A cidade incentiva o uso de carros, e quem não tem um sofre bastante com as distâncias. Até para ir na padaria precisa-se de carro, na maioria das vezes. Não é à toa que já sofre com muitos problemas de congestionamento.

A visão do alto da Torre de TV é fantástica, percebe-se exatamente a forma de avião que configura a cidade. A feira de artesanato que tem na sua base também é um ótimo passeio para as manhãs de fim de semana, principalmente se rolar um pastel com caldo de cana.

Mas o melhor pastel com garapa fica mesmo é na Pastelaria Viçosa, na rodoviária, ponto de parada de vários fins de noite. Assim como o restaurante da mineira (nunca sei o nome dele nem dela) que fica do lado da hípica, uma das melhores comidas mineiras que já provei diretamente do fogão de lenha, sem contar a recepção, quase como chegar em casa! Do mesmo jeito é o Armazém do Mineiro, ponto de encontro da sucursal montesclarense da Confraria sempre que vou a Brasília.

Estabelecer vínculos de amizade na cidade é um pouco difícil para os “forasteiros”. A sensação de frieza e de distância que a cidade passa muitas vezes se reflete nos seus habitantes. Mas um pouco de convívio, compreensão e proatividade são a receita para quebrar esse gelo.

Não se pode perder o Memorial JK, que conta a história do presidente visionário; visitas aos prédios-monumentos da cidade: a catedral, o Teatro Nacional, o Congresso, os Palácios da Alvorada, do Planalto, do Buriti, o mastro da Bandeira… passear à pé ou de bicicleta no Parque da Cidade, ou no Eixão, aproveitando que fica fechado para os carros nos domingos.

Para quem visita pela primeira vez, pode até causar desespero a falta de esquinas, dos nomes de ruas, dos endereços serem definidos por siglas e números, e rodar pelas tesourinhas e viadutos que servem de retorno nas avenidas principais e parecem que levam pro mesmo lugar.

Voltei para Brasília com 18 anos para “estudar” pro vestibular. Tinha desistido do meu primeiro curso superior e se ficasse em Montes Claros não iria ter disciplina de estudos. Morei durante 4 meses com minha irmã, e não fazia muita coisa além de ir pro cursinho de manhã, dormir à tarde e fazer festa com os irmãos nos fins de semana.

A terceira vez que voltei a morar lá foi por motivos profissionais. Antes de me formar em Relações Públicas, passei no concurso do Banco do Brasil. Depois da graduação, queria trabalhar na área, e se continuasse na agência em BH não conseguiria, então fui pra Brasília para tentar alguma coisa na Comunicação do Banco. E até que consegui, mas no mesmo dia em que fui nomeado para trabalhar no cerimonial do presidente, recebi um telegrama convocado para me apresentar à Petrobras num concurso que havia feito dois anos antes. Foi motivo de comemoração até o dia raiar, pois faltavam 12 dias pro meu aniversário e era exatamente o presente que eu estava esperando: uma mudança radical na minha vida!

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