Tô nO Globo!

16 06 2009

Semana passada eu queria divulgar um fato interessante, mas veio o feriado e fiquei sem acesso a internet. Agora posso compartilhar com vocês:

O site do jornal O Globo tem um blog sobre a Dinamarca, o Vikingland, que está no meu blogroll desde sempre. Eis que a blogueira Ilane Alves teve a idéia de publicar as aventuras de brasileiros em solo dinamarquês, e o meu relato saiu na última quinta-feira, dia 11/06.

Para quem quiser conferir, segue o link:

http://oglobo.globo.com/blogs/dinamarca/posts/2009/06/11/tupinikings-na-dinamarca-194628.asp





Extra! Extra!

3 04 2009

Um adolescente brasileiro fazendo intercâmbio numa ilha de 40.000 habitantes perdida no meio do Mar Báltico já é história suficiente para qualquer jornal. E foi mais ou menos por aí que fui notícia várias vezes nos periódicos dinamarqueses.

Não vou traduzir todos os textos, pois iria tomar muito tempo e espaço. Ao contrário, traduzirei apenas os títulos e alguns trechos interessantes de cada reportagem.

Brasileiro chega hoje em Aarsballe

Brasileiro chega hoje em Aarsballe

Em 30 de julho, um dos maiores jornais da ilha, o Bornholmeren, fez uma pequena reportagem com minha família hospedeira, contando da sua experiência anterior com intercambistas e sobre a sua ansiedade em receber um brasileiro por um ano.

"Eu não sabia nada sobre a Dinamarca"

"Eu não sabia nada sobre a Dinamarca"

No dia 03 de agosto, uma pequena chamada na capa e uma reportagem de meia-folha no Bornholmeren novamente. O título foi meio apelativo, com uma frase minha fora do contexto, que deixou uma má impressão no começo. Mas no texto eu explico que estudei muito e entrei em contato com a Embaixada antes de chegar no país, portanto nem era tão grave assim. Coisas chocantes: a minha magreza, o tamanho dos óculos e meus planos para o futuro. Durante a entrevista, eu digo que quando voltar ao Brasil queria estudar Direito ou Química. Tá certo que fiz vestibular para Direito e Farmácia na volta, mas hoje sou um Relações Públicas muito feliz com minha profissão!

Capa da revista de Klemensker

Capa da revista de Klemensker

Hernani queria ir para a Espanha, mas aportou em Aarsballe

Hernani queria ir para a Espanha, mas aportou em Aarsballe

Segunda página da reportagem na revista de Klemensker

Segunda página da reportagem na revista de Klemensker

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No quarto mês, fui capa da revista mensal da cidade de Klemensker. O título da reportagem menciona o meu sonho de conhecer a Espanha, mas que apesar disso eu tinha parado numa cidadezinha de uma ilha no meio do Mar Báltico. No texto, o repórter se mostra espantado com o meu aprendizado do idioma em tão pouco tempo, e quais foram as minhas primeiras impressões sobre o país: o sol se por às 8 e meia da noite foi  a maior delas, e o meu problema com o vento constante e o frio. Destacou-se a minha expectativa em ver neve no inverno, pois eu nunca havia vivido essa experiência. Ao final, eu prometo mandar um texto sobre o Brasil assim que aprendesse a escrever em dinamarquês. Para falar a verdade, não faço ideia se cumpri a promessa, pois não tenho nenhuma cópia da edição nos meus guardados…

Uma semana inteira de América Latina na Escola de Klemensker

Uma semana inteira de América Latina na Escola de Klemensker

"Hermani", uma grande ajuda

"Hermani", uma grande ajuda

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em janeiro, a Escola de Klemensker recebeu outros 7 intercambistas de países latinoamericanos, para a sua “Semana Temática”. Trata-se de uma semana onde toda a vida escolar gira em torno de um tema, e nesse ano foi a América Latina. Nós fomos a várias salas de aula para falar sobre nossos países, cultura, folclore, ensinar um pouco da língua, dar aulas de danças típicas, ensinar a fazer alguns pratos, e ao final uma grande festa de confraternização. O jornal destacou a minha ajuda em todas as etapas do evento, desde o seu planejamento (nascia ali um RP?), apesar de escreverem meu nome errado…

Sistema Escolar Sueco é o Melhor

Sistema Escolar Sueco é o Melhor

Quando passamos uma semana em “mini-intercâmbio” na Suécia (essa história será contada em um post futuro), também saímos no jornal da cidade de Sölvesborg. Entrevistaram a Ceren, da Turquia, que como todos nós ficou muito impressionada com o sistema escolar público da Suécia, ainda melhor que o da Dinamarca.

Festa de Despedida do AFS em Ibsker

Festa de Despedida do AFS em Ibsker

Em 19 de junho de 95, durante a nossa “festa de despedida”, o maios jornal da ilha – Bornholms Tidende – fez uma visitinha e pegou um apanhado geral da nossa experiência, em que falamos da escola, do clima frio, das pessoas com quem fizemos amizades e das mudanças que nossas vidas teriam a partir dali. Aquilo em cima da minha cabeça É o meu cabelo… foi o máximo que a minha rebeldia capilar adolescente atingiu. Ainda bem que as pessoas evoluem!!!

Se alguém quiser autógrafo, favor entrar em contato com a minha empresária…





Casos do Cotidiano

19 03 2009

Para voltar ao ritmo, nada como contar algumas passagens interessantes do meu dia-a-dia na Dinamarca. 

Durante meu intercâmbio, decidi que não iria ligar para as pessoas no Brasil, para não agravar as saudades. Dessa forma, os correios eram a única forma de contato com minha família e amigos. Demorava cerca de uma semana para responder as cartas que recebia, e para minha mãe enviava uma correspondência por semana (um dia ainda vou reunir essas cartas num livro ou blog). Cheguei a receber alguns telefonemas, mas já nos últimos meses do intercâmbio, quando a saudade não apertava tanto assim. Por causa dessa decisão de usar somente cartas, a hora do carteiro passar em casa era um dos momentos mais aguardados do dia. E logo no dia seguinte ao meu aniversário, eis que nenhuma correspondência chegou. À noite, a notícia desoladora: os correios haviam entrado em greve. Logo no meu aniversário?! Tive que esperar uma semana para receber as lembranças das pessoas mais queridas que estavam longe.

A minha família não confirmava o famoso estereótipo dos europeus não gostarem de banho. Todos tomavam banho diariamente, até mesmo com toda a preguiça que o inverno dava na gente. Só que meu pai dinamarquês perdia a noção às vezes. Como já falei anteriormente, ele trabalhava com manutenção de máquinas de ordenha. Passava o dia inteiro em estábulos, e chegava em casa fedendo a gado. Só que, em vez de ir tomar banho de imediato, sentava-se à mesa para o jantar. Havia dias que eu fazia até vômito, e ele não se tocava. Ainda bem que o cheiro também incomodava a Christa, e ela mandava o Vagn direto para o banho.

Aqui no Brasil, eu era sempre um dos últimos a ser escolhido na divisão dos times, mas lá na Dinamarca eu era um dos primeiros… muito mais pela nacionalidade do que pela habilidade em si, apesar de que eu era um dos melhores da turma, para se ter uma ideia. Um dia, numa jogada “sensacional”, a bola veio alta e fui ajeitá-la com o peito. Como percebi que não conseguiria amortecê-la devidamente, coloquei a mão para ajudar. A intimidade com a bola era tão grande que ela bateu certinho no meu dedo e deslocou o coitado. Não deu nem pra despistar, pois a dor era enorme. Parei no médico para voltar o dedo pro lugar e colocar uma tala por 15 dias.

Todo esse atendimento médico foi gratuito. A escola também era pública, e todos os alunos são obrigados a visitar o dentista a cada seis meses. Como estudante de intercâmbio, eu tinha direito a praticamente tudo que um cidadão dinamarquês tem, apesar de não precisar pagar os cerca de 50% dos rendimentos em impostos como eles fazem. Esse é o estado de bem-estar social dinamarquês, que fez o país tornar-se um paraíso para refugiados das mais diversas nacionalidades, e gera tanta polêmica, discussão e preconceito no país. Os dinamarqueses pagam os impostos e todos usufruem de médicos, escolas, estradas, salário-desemprego, assistência social.

Durante o tempo que fiquei lá, era praticamente uma obsessão procurar por produtos “Made In Brazil”. O primeiro que vi foi um prato de cerâmica, nada de mais. Depois vi sapatos, frutas do Vale do São Francisco (uma manga custava cinco dólares!!!), e no restaurante mais famoso de Bornholm os talheres eram da Tramontina.

A Dinamarca não é tão gelada como costumamos imaginar. A proximidade com o mar (nenhum dinamarquês vive a mais de 200 quilômetros do oceano), a água ameniza e equilibra o clima. Saí de Montes Claros no inverno, quando a temperatura chega aos 20°C, e cheguei na Dinamarca no meio do verão, com uma temperatura de… 25°C. Foi ótimo, facilitou bastante a adaptação. A temperatura mais baixa que experimentei por lá foi -10°C. Quando voltou a fazer calor, e a temperatura chegou aos 15°C na primavera, eu já estava vestindo bermuda e com vontade de tomar sorvete!!!!

A tradicional foto da primeira neve, com minha casa ao fundo

A tradicional foto da primeira neve, com minha casa ao fundo

O dia mais curto do ano foi 21/12. O sol nasceu por volta de 9h30 da manhã, quando eu já estava na escola, e se pôs por volta de 15h, quando eu ainda não tinha saído da aula. E ainda estava nublado, como a maior parte do inverno. A primeira neve que vi na minha vida caiu no dia 12 de novembro, mas foi só para conhecer mesmo. Na manhã seguinte já havia derretido. Não nevou no Natal, mas no dia 26 caiu uma boa dose, que chegou a uns 5 centímetros e durou dois dias. Não deu pra andar de trenó, patinar nos lagos ou fazer boneco de neve, mas boas guerras de bolas de neve foram travadas na escola.

Minha casa coberta de neve

Minha casa coberta de neve

Raro dia de sol com a paisagem ainda cheia de neve

Raro dia de sol com a paisagem ainda cheia de neve

Eu sempre era convidado pelos professores a fazer palestras sobre o Brasil nas outras séries. Isto me proporcionou, inclusive, a fazer algumas palestras em Grupos de Terceira Idade, e faturar uma graninha. Mostrar que o Brasil não era só café, futebol e carnaval, e além de tudo ganhar por isso, era muito bom! Além disso, como todo estudante de intercâmbio, consegui alguns bicos para ganhar uma graninha extra: na biblioteca da escola, colocando os livros de volta nas prateleiras ou arrumar o estoque de lenha para o inverno nas casas dos professores.

São alguns detalhes do dia-a-dia que podem até passar despercebidos, mas que no final fizeram toda a diferença no intercâmbio.





Festas e Comemorações

13 12 2008

Meu primeiro aniversário fora de casa não foi muito diferente. Caiu numa quinta-feira, eu não sabia e nem me avisaram que é tradição levar um bolo para a escola, mas cantaram parabéns para mim e me desejaram mil felicidades. Em casa, hastearam a bandeira dinamarquesa no mastro do jardim, como sempre fazem em datas especiais.

Além de presentes, ganhei também algum dinheiro, pois isso é muito comum por lá. Mas o maior presente que ganhei foi que, a partir daquele dia, todos decidiram que eu iria me comunicar somente em dinamarquês. Afinal, eu já estava lá há 70 dias e já entendia muita coisa, faltava apenas um impulso para tomar coragem e começar a praticar o idioma.

No domingo, chamamos alguns amigos para jantar, e nesse dia tive uma grande surpresa! Durante o intercâmbio, aprendi a aceitar todo tipo de comida e somente depois perguntar o que era. Uma forma de ser educado, e não rejeitar as coisas antes de provar. Resumindo, um jeito de não ser preconceituoso. Eis que neste jantar teve um prato especial: uma ave, com carne mais dura e forte. Comi, achei estranho e então perguntei de que se tratava. Deveria ter ficado calado, pois descobri que era POMBO! Confesso que foi a única vez que meu estômago revirou ao saber o que tinha comido…

Festa de aniversário tradicional e diferente mesmo foi a do meu “pai”, quando ele completou 60 anos. Bandeira no mastro, bandeirinhas de papel enfeitando todo o jardim, e festa o dia inteiro. É o que eles chamam de åbent hus, ou casa aberta. Às 11 horas da manhã, as pessoas começaram a chegar para visitar, dar os parabéns, entregar os presentes e comer e beber à vontade! Esse entra-e-sai de pessoas durou até as 5 da tarde, e eu ajudava no corre-corre, recolhendo os pratos e talheres usados, lavando, enxugando, limpando as mesas, pois tudo deveria estar limpo para os convidados que chegavam e saíam todo o tempo. O bom é que, além de não precisar ir na escola, passei o dia todo comendo!!!

Aniversário de 60 anos do Vagn

Aniversário de 60 anos do Vagn

O banquete da festa de 60 anos

O banquete da festa de 60 anos

 

Os filhos dos Ipsen não puderam vir à festa, pois era em plena quarta-feira. Só vieram para o fim-de-semana, e foi a primeira vez que a família ficou toda reunida.  Foi um dos momentos mais hygge que tive por lá. Já expliquei o que é hygge no post “A Ilha dos Templários”, mas achei uma definição bastante interessante no post http://rebicki.blogspot.com/2008/11/hygge-rga-o-jeitinho-dinamarqus.html

Christa, Annie, Per, Rikke Ipsen, Jakob, Rikke do Jakob, Vagn

Christa, Annie, Per, Rikke Ipsen, Jakob, Rikke do Jakob, Vagn

A Dinamarca tem muitas tradições no período natalino. Começa com o julekalendar, ou calendário de Natal. As crianças recebem um presentinho por dia, a partir do dia 1º até o dia 24 de dezembro. São chocolatinhos, lápis, canetas, calendário, pequenas lembranças para “aquecer” os preparativos. É comum também você fazer sua ønskeseddel, que nada mais é que uma lista de presentes que você deseja para o Natal, e distribuir para toda a família e os amigos mais próximos.

No dia 13 de dezembro há a procissão das luzes, originária da festa para a deusa nórdica Lucina, que os católicos transformaram em Santa Luzia e os luteranos herdaram a tradição. Inclusive tem a mesma música de Santa Luzia que conhecemos no Brasil e as pessoas andando pelas ruas levando velas nas nas mãos.

Também existe o amigo oculto, que é conhecido como nisse, ou duende. Seu objetivo é sempre fazer alguma coisa com seu amigo, seja boa ou ruim. Na escola, ganhei bolo, chocolates, mas também ganhei arroz nos bolsos da minha jaqueta e sumiços de estojos e cadernos… eu também não deixava barato, e escondi até a mesa e a cadeira do meu amigo oculto!

No Natal também pendura-se alguns anjos e duendes nas janelas da casa, e como não poderia faltar, tem a árvore. A única diferença do Brasil é que o pinheiro era natural, escolhido na floresta. Até as luzinhas piscantes havia!

Enfeites na janela durante o Natal

Enfeites na janela durante o Natal

Nas comidas do Natal, tem uma tradição de fazer biscoitos, ou julekiks. Tem também o ris a la mand, um tipo de arroz doce com uma amêndoas, e quem acha a amêndoa inteira ganha um brinde. A Fernanda que escreve sobre a Dinamarca, tem um post muito bom sobre as comidas natalinas: http://oglobo.globo.com/blogs/dinamarca/post.asp?t=tradicao-de-natal&cod_Post=81417&a=321

Fazendo julekiks com Annie

Fazendo julekiks com Annie

Só faltou mesmo a neve. Fomos à missa de Natal, a única ocasião em que a igreja fica completamente lotada. Depois, todos voltam para suas casas e, ao redor da árvore, rezam, trocam presentes, cantam, dançam, fazem brincadeiras, comem, bebem e conversam muito.

Últimos preparativos na árvore de Natal

Últimos preparativos na árvore de Natal

Como eu nunca fui muito fã de Natal, eu estava mesmo preocupado com o Ano Novo. Tomei muita coragem e, uns 15 dias antes da festa, me ofereci para passar o reveillon na casa da Christine, que naquela altura já era a minha melhor amiga e, como bons adolescentes, a paquera rolava naturalmente. É claro que ela tomou um susto com a minha cara-de-pau, disse que não iria fazer nada no ano-novo pois iria a uma festa de bodas de ouro bem cedo no dia primeiro. Só que, dois dias depois, ela me disse que conversou com os pais e que eu iria passar o reveillon com ela.

Foi uma festa, digamos, particular… Estávamos só nós dois e os pais dela na casa. Conversamos, assistimos um pouco de televisão – a Rainha da Dinamarca, tradicionalmente, faz um discurso de Ano Novo na noite do dia 31 – e ela me chamou pra subir pro quarto, que os pais dela nos chamavam quando chegasse a meia-noite. Subimos e, ehhh… caham… ficamos jogando gamão a noite toda, até a hora de descer. Meia-noite, champanhe, fogos, abraços e saudações. Pena que tive que ir embora cedo, porque realmente eles iriam para as bodas às 5 da manhã para uma serenata. Fui para a cidade encontrar alguns dos colegas de classe, e ficamos bebendo e andando pelas ruas, soltando bombas e fogos de artifício. Foi muito divertido, mas eu estava meio abobalhado naquela noite, depois de ter jogado gamão pela primeira vez…





Pessoas de lá e de cá

1 12 2008

Os meus pais dinamarqueses tinham três filhos, que já não moravam em casa. O mais velho, Jakob, tinha seus trinta e poucos anos, era casado com Rikke, e moravam em uma cidade na Grande Copenhaguen. Por coincidência, a filha do meio também se chamava Rikke, estava próxima dos 30 anos e era casada com Per, e também moravam em Copenhaguen. Annie, a caçula, tinha 25 anos e estudava na universidade da cidade de Århus. Sempre recebíamos visitas deles, alternadamente, mas somente no Natal a família conseguiu se reunir completamente.

Christa e Vagn tinham também uma grande amiga, companheira para todas as horas: Juliana, uma refugiada da Guerra da Iugoslávia e suas duas filhas, Vera, de 7 e Andrea, de 5. Tinham uma experiência de vida enorme, e muita história para contar. E as crianças eram muito inteligentes, pois tão novas e já falavam 4 línguas: sérvio (por causa do pai), húngaro (por causa da mãe), inglês (por causa da necessidade) e dinamarquês (por causa da escola). Juliana era um grande exemplo do Estado de Bem-Estar Social da Dinamarca, que abriga indistintamente seus cidadãos e os refugiados que escolhem o país como lar. Recebia seguridade social, e suas filhas tinham direito a educação e saúde pública como qualquer cidadão dinamarquês. 

Na escola, me relacionava bem com todos, alunos e professores. Sempre era convidado a falar sobre o Brasil nas outras turmas, em inglês no início e em dinamarquês após aprender o idioma. Consegui até descolar um “bico” na biblioteca da escola, organizando os livros nas prateleiras e faturando uma graninha extra.

No Grupo Escoteiro, também fiz amigos incríveis, principalmente a Karina, que adorou a idéia do intercâmbio e resolveu receber um estudante de intercâmbio em sua casa no ano seguinte. Por coincidência, seu “irmão”, também foi brasileiro. Logo depois, ela resolveu ser intercambista e passou um ano na Venezuela. Em 2004, aproveitou uma visita à sua família venezuelana e deu uma esticadinha ao Brasil, visitando seu “irmão” em São Paulo e a mim no Rio de Janeiro. Karina gostou tanto da sua experiência de intercâmbio que trabalha até hoje no AFS da Dinamarca.

Para reforçar o nosso aprendizado de dinamarquês, o AFS disponibilizou um professor para os intercambistas. Aproveitando a turma, o Rotary e a Baltic Bridge também inscreveu seus estudantes no curso, aumentando a torre de babel em alguns países: além do Brasil, Letônia, México, Austrália, Tailândia, Hungria e Turquia, juntaram-se a nós estudantes dos Estados Unidos e da Estônia. Dessa forma, uma vez por semana, todos os intercambistas da ilha se reuniam para conversar e trocar experiências, muito mais do que realmente estudar a língua.

Assim, minha agenda estava sendo preenchida com muitas atividades: Grupo de Jovens na terça-feira, escotismo na quarta, aula de dinamarquês na quinta, escola de segunda a sexta das 7h às 15h, em média. Bico na biblioteca pelo menos duas vezes por semana, e muita bicicleta para todos os lados!

Ao mesmo tempo que procurava me adapatar a essa nova realidade, uma grande ajuda apareceu de um lugar inesperado: a Denise, que antes da minha viagem era a paixão adolescente de todos os meninos da turma “lá da rua”, fez intercâmbio nos Estados Unidos na mesma época, e passamos a trocar cartas praticamente toda semana. Conversas sobre situações vividas, experiências adquiridas, os diversos sentimentos por que passa um intercambista, todas essas semelhanças nos aproximou de uma forma que nos considerávamos praticamente irmãos naquele período.

Com a popularização do Facebook no Brasil, comecei a reencontrar muitas dessas pessoas que foram inesquecíveis no meu intercâmbio. A parte mais divertida é descobrir que não mudaram quase nada, mesmo 15 anos depois. Geralmente, o que mudou foi o número de herdeiros que trouxeram ao mundo. Eu continuo na mesma…





Volta às aulas

17 11 2008

No primeiro semestre de 1994, antes de ir para a Dinamarca, meu colégio em Montes Claros recebeu uma intercambista da Tailândia, que ficou na minha turma. Para mim, foi um exemplo vivo de como as coisas poderiam correr com a minha experiência.

Seu nome era Seeweepa Machuay, ou alguma coisa do tipo, e como tradicionalmente todas as pessoas na Tailândia têm um apelido, ela era conhecida como Noo. Seu primeiro dia de aula foi algo inesquecível para todos: na sala, foi cercada pelos colegas que a enchiam de perguntas, ávidos por treinar o seu inglês e para satisfazer as curiosidades sobre um país tão exótico quanto a Tailândia. Na hora do recreio, então, foi praticamente um pandemônio, com a criançada da quinta, sexta séries loucas com a novidade.

Noo era uma menina extremamente simpática, representante genuína do país-sorriso, como a Tailândia é carinhosamente chamada. Apesar da timidez e da barreira do idioma, ela estava sempre disposta a conversar e responder às perguntas, e não hesitava em perguntar, pois era curiosíssima. Apaixonou-se por sorvete e pela comida mineira, e quando eu estava me preparando para viajar me deu dicas valiosíssimas.

Era praticamente impossível não me lembrar da Noo no caminho para o meu primeiro dia de aula. Como seria a recepção? Como seriam meus colegas? Será que eles iriam me bombardear com perguntas, que as crianças iriam querer saber tudo sobre mim e sobre o Brasil, ainda mais que a seleção de futebol tinha acabado de ganhar a Copa do Mundo?

Mas veio uma grande decepção: ninguém veio falar comigo, ficaram ali conversando entre si, olhando para mim, mas nada de conversa. Eu percebia que eles estavam curiosos, interessados em puxar um papo, mas até eu descobrir que não era frieza e sim tímidez, e até mesmo o tal do respeito pela individualidade do outro, passaram-se alguns dias… então já no terceiro dia de aula percebi que eu teria que “quebrar o gelo” e puxar conversa com as pessoas, e a partir desse momento tudo ficou muito mais fácil!

No pátio da escola, à espera do primeiro dia de aula

No pátio da escola, à espera do primeiro dia de aula

Na Dinamarca, as crianças ficam no Jardim de Infância até os 6 anos, como no Brasil, daí passam para a Primeira Série. O Ensino Fundamental tem 10 séries, porém na nona série pode-se optar entre fazer o último ano ou ir direto para o Gymnasium, equivalente ao nosso Ensino Médio. Pelo que me lembro, no Gymnasium já se pode escolher qual o direcionamento que seus estudos vão tomar: ciências humanas, cálculos, ciências agronômicas, ciências bioquímicas. E só vai para a faculdade quem realmente quer se aprofundar na carreira acadêmica ou nos cursos mais complexos como medicina ou advocacia. Para os outros, você faz um tipo de curso técnico que é reconhecido amplamente como qualificador de mão-de-obra.

Os dinamarqueses começam a aprender inglês já na primeira série primária, e da forma correta: primeiro aprendendo a ouvir, depois a falar, depois a ler e somente depois a escrever. É a forma natural do ser humano aprender uma linguagem, e acho que funciona muito bem!

As turmas têm o seu professor-referência, que é um professor determinado para acompanhar a turma durante os dez anos do Ensino Fundamental.

Na décima série, tive aulas de Dinamarquês, Inglês, Física (que na verdade era química), Matemática, Estudos Sociais (que dava uma passeada por Geografia e História) e um horário que a gente fazia coisas diversas, desde carpintaria até esportes, passando pela cozinha, jogos, visitas à biblioteca para pegar livros emprestados, relacionamento interpessoal. E eu era dispensado das aulas de alemão, e usava esse tempo para estudar um pouco mais o dinamarquês.

Décima série na sala de aula

Décima série na sala de aula

Na época considerava que o ensino de lá era bem mais fraco que o nosso, mas na verdade eles têm 10 anos para ver o que os brasileiros estudam em 8 anos. Então a matéria era muito mais fixada, estudada, aprendida efetivamente.

No começo, eu só conseguia acompanhar as aulas de Inglês e de Matemática. Nos outros horários, ficava escrevendo cartas, lendo alguma coisa, ou simplesmente viajando nos meus pensamentos. Ficava tranquilo, pois as provas só acontecem no meio e no final do ano-letivo, então até lá eu já teria aprendido o idioma e conseguiria recuperar tudo.

Minha turma tinha 20 alunos, e além de mim havia outra intercambista vinda da Estônia. Seu nome era Renna e seu segundo idioma era o Alemão. Era mais um motivo para eu aprender o dinamarquês mais rápido, pois era a única forma de conversarmos sem a ajuda de tradutores. E a sensação de ter uma pessoa logo ali, que você percebe ser divertida, legal, e acima de tudo, muito bonita, e não conseguir trocar nem 5 palavras com ela, é horrível!

E logo no primeiro dia de aula recebemos uma notícia que me faria ter certeza de que muita coisa espetacular ainda estava pela frente naquele ano: é uma tradição na Dinamarca que se faça uma viagem de formatura das turmas da décima série, e o nosso destino, na primavera, seria Londres! Com uma perspectiva tão boa assim logo no primeiro dia, qualquer espaço que poderia existir para depressão, tristeza, vontade de desistir e voltar para casa foi logo preenchido por expectativa, ansiedade e curiosidade.





A Ilha dos Templários

10 11 2008

Minha primeira semana em Bornholm foi de férias. Aproveitei que as aulas iriam começar somente na semana seguinte, que os dias estavam bastante longos e que eu tinha acabado de conseguir uma bicicleta emprestada para andar pela ilha toda. Nessas pedaladas, pensava muito no Brasil e nas pessoas que ficaram aqui, mas de uma forma que a saudade não apertava, pois eu estava direcionando toda a energia para o exercício físico. Era uma ótima maneira de sentir saudades!

Também na primeira semana, hospedou-se na nossa casa um missionário sul-africano, chamado Solomon, que foi um ótimo companheiro de pedaladas.

Hernani, Solomon e Vagn tomando café-da-manhã
Hernani, Solomon e Vagn tomando café-da-manhã

Bornholm é uma ilha em forma de losango, com 40 quilômetros de largura por 40 quilômetros de comprimento. Seu ponto mais alto, Rytterknægten, tem 162 metros de altitude em relação ao nível do mar e fica bem no centro da ilha. É um lugar perfeito para andar de bicicleta, isso sem contar os incontáveis quilômetros de ciclovias que interligam todas as suas cidades.

Apesar de ser um lugar tão pequeno, possui uma variedade enorme de paisagens. No noroeste, há desfiladeiros de rochas e praias pedregosas, e a mais antiga ruína da Escandinávia, o castelo de Hammershus. No sudeste da ilha, praias de areia branca e fina, que formam dunas de até 10 metros de altura, na região chamada de Dueodde. No centro da ilha, várias florestas replantadas de pinheiros, onde há animais selvagens como faisões, lebres, veados e raposas.

Jons Kappel - Desfiladeiros no noroeste de Bornholm

Jons Kappel - Desfiladeiros no noroeste de Bornholm

Hammershus - a maior ruina da Escandinávia

Hammershus - a maior ruína da Escandinávia

Dueodde - dunas de areia branca

Dueodde - dunas de areia branca

A ilha tem cerca de 40 mil habitantes, e um quarto deles mora na capital, Rønne. As outras grandes cidades são Nexø, Aakirkeby, Sandvig-Allinge e Gudhjem.

Moinho de vento simbolo da cidade de Gudhjem

Moinho de vento símbolo da cidade de Gudhjem

As principais atrações turísticas da ilha são as rundkirke, as igrejas com arquitetura exclusiva, construídas em forma circular, que serviam também como fortificações na Idade Média. São 4 no total, em Nyker, Nylars, Olsker e Østerlars. Reza a lenda que essas igrejas foram construídas pelos Cavaleiros Templários, e que estão milimetricamente colocadas nos vértices de um pentagrama, juntamente com a que fica na ilhota de Christiansø, ponto mais oriental da Dinamarca. Já foi até tema de um documentário no Discovery Channel!

Uma das igrejas circulares de Bornholm

Uma das igrejas circulares de Bornholm

O povo de Bornholm, como o restante dos dinamarqueses, é extremamente amigável, não perdem a oportunidade de te cumprimentar com um bom sorriso no rosto. A maioria absoluta fala inglês perfeitamente, e muitos ainda têm boas noções de alemão. São prestativos, porém fazem de tudo para não incomodar nem invadir a privacidade e a individualidade do próximo. Por isso a fama de serem frios e liberais: nenhum dinamarquês vai questioná-lo ou chamar a sua atenção por fazer qualquer coisa, a não ser que seja ilegal ou que esteja ferindo a sua própria individualidade. Assim, são muito dispostos a ajudar, dar informações, dar carona. Agradecem por tudo: pela comida, pela hospitalidade, pela gentileza do último encontro. Cabelos loiros, estatura alta e olhos azuis formam a maioria absoluta, e meu cabelo preto e olhos castanhos destoavam do cotidiano e chamavam a atenção.

Além do turismo, principalmente nas férias de verão, a ilha é especializada na pesca de arenque, sendo que o defumado é o prato típico (e delicioso). Além disso, muitas plantações de milho, soja e beterraba, assim como criações de vacas leiteiras e porcos.

Arenques defumados

Arenques defumados

Por falar em comida, depois de 12 dias jantando batata religiosamente, não aguentei e pedi para variarem o cardápio. A partir daí, pelo menos duas vezes por semana tinha arroz ou macarrão para acompanhar a carne no jantar.

E a cada dia que passava eu entendia cada vez mais o significado de uma palavra que não tem tradução do Dinamarquês para nenhuma outra língua: HYGGE! É um tipo de sensação boa, de conforto, de aconchego, de aceitação, de relaxamento, de tranquilidade. E entendia porque Bornholm era chamada de ilha do hygge: a cada dia me sentia mais confortável, mais em casa, mais aconchegado a todas aquelas novidades!