Pura Vida!

11 02 2010

Decidimos o destino da nossa Lua-de-mel depois de muita pesquisa, tentando conciliar os sonhos e desejos de cada um. Conseguimos um pacote interessante para a Costa Rica, que incluiu o aluguel do carro e as passagens com o programa de milhagem.

O casamento foi no sábado à tarde em Tocantins/MG, e no domingo de madrugada voltamos para o Rio, pois nosso voo saiu às 13h30. Escala na Cidade do Panamá por uma hora, chegamos a San José por volta das oito da noite, hora local, que está 4 horas atrás de Brasília. Motorista aguardando no aeroporto com nome na placa, traslado até o primeiro hotel, tudo indo muito bem.

Esta é a grande vantagem de se comprar pacotes turísticos: não ter muita preocupação. Não procurar por taxi, não precisar trocar dinheiro nas taxas abusivas do aeroporto, não esquentar com reserva de hotel.

Na manhã de segunda-feira, o representante da locadora de veículos levou o carro – um jipinho Daihatsu Bego – até o hotel, e contratamos também um GPS para facilitar ainda mais a nossa vida. Foi uma das decisões mais acertadas da viagem, afinal a Sra. Wilson, como a chamávamos, conhecia muito bem aquelas estradas e paradas, e avisava até dos quebra-molas no caminho. Passamos num supermercado para algumas comprinhas emergenciais, como sanduíches, sucos e chocolate e colocamos o próximo destino no GPS, seguindo uma sugestão da Agência de Turismo brasileira: “La Paz Waterfall Gardens”.

Estávamos num subúrbio de San José, e nos surpreendeu a arquitetura local: casinhas de madeira, baixas, com amplos jardins e quintais. Muitas até sem grades. Tudo muito bonitinho, arrumadinho. Não pegamos nenhuma via principal, então nem trânsito enfrentamos, mas logo pegamos uma subida e percebemos que o carro era fraquinho… uma subidinha de nada e tive que reduzir para a segunda marcha, em alguns pontos até primeira… devia ser 1.0 o coitado.

Passamos por vias muito arborizadas, que já nos deu o cartão de visitas do país: conhecido por ambientalistas do mundo inteiro, a Costa Rica é um exemplo de preservação, tendo mais de 25% de seu território protegido por Parques Nacionais. E passando por um vilarejo com ares de anos 60, placas com diversas mensagens penduradas nas árvores, tivemos outra informação que nos tornou um pouco mais admiradores daquele lugar: desde 1948 a Costa Rica não tem Forças Armadas. Um país de paz, que respeita a natureza, realmente fizemos a escolha certa!

A estrada se tornava cada vez mais precária, com vários trechos de terra, interdições de meia-pista e desmoronamentos nas beiradas. Como não sabíamos de nada, continuamos a seguir o que a Sra. Wilson mandava. Chegamos ao Parque e soubemos que várias de suas atrações estavam com acesso proibido por causa d o terremoto de 2009, inclusive as três cachoeiras. Decidimos que não valia a pena pagar 35 dólares por cabeça para ver borboletas e macacos e caminhar entre as árvores, então decidimos seguir viagem até o destino final daquele dia: a cidade de La Fortuna, aos pés do Vulcão Arenal. Tentamos seguir a estrada, porém logo em frente havia uma placa do governo proibindo o acesso, e tivemos que retornar e fazer uma volta enorme para dar continuidade à viagem. Só no retorno ao Brasil, acessando a Wikipedia, é que tive uma idéia de onde eu estava: no epicentro do terremoto de janeiro de 2009, o mais grave da história do país.

Depois de muita estrada, paramos em um borboletário para ir ao banheiro e comer os sanduíches que havíamos comprado, já que tínhamos saído do nosso planejamento. Foi quando a Patrícia pisou em falso e torceu o pé. Esperamos um pouco para ver se tinha sido grave, mas apesar da dor não havia inchado muito. Resolvemos seguir viagem, colocando um saco de gelo no tornozelo e ficando mais quieto no restante da tarde, já que se a torção piorasse poderia comprometer todo o restante do passeio. Fizemos um pit-stop estratégico no caminho para trocar o saco de gelo e, chegando a La Fortuna, passamos numa farmácia para comprar uma faixa de imobilização e um analgésico. Seguimos para o hotel e fomos para a piscina, uma forma de descansar da estrada e de manter o pé da Patrícia em condições favoráveis, sem impacto e num ambiente frio.

Quando anoiteceu, queríamos experimentar a culinária local, e nada melhor do que o Restaurante La Típica, que eu tinha visto na estrada pertinho de La Fortuna. Era praticamente um galpão, ou uma grande varanda, de madeira coberta com telhas, tudo bem simples. Abrimos o cardápio, pedimos duas cervejas Imperial, a marca nacional, e perguntamos qual era o prato típico. Pedimos, então, dois casados, e para nossa surpresa era muito próximo ao que estamos acostumados no Brasil: arroz, feijão preto, salada de repolho e tomate, batata e chuchu cozidos, banana frita e um bife extremamente macio. Para dar um toque especial, ainda tem um molho típico que é conhecido pela sua marca: Lizano (se parece um pouco com um molho barbecue acrescido de alho). O jantar foi simples, bonito e delicioso!

Voltamos para o hotel e dormimos cedo, principalmente por causa do jet lag. Antes das 9 horas da noite já estávamos dormindo! O mais engraçado é que eu acordei descansado, achando que já estava na hora do café da manhã, mas olhei no relógio e ainda era meia-noite! Depois disso acordamos mais um tanto de vezes durante a madrugada, parte pela ansiedade de fazer os passeios, parte pelo fuso horário, até realmente chegar a hora de ir pro café. E assim foi em todos os dias: acordávamos antes do sol, éramos uns dos primeiros a tomar café, passávamos o dia inteiro passeando e voltávamos pro hotel a tempo de tomar banho, jantar e dormir antes das 9 horas da noite.

Na terça-feira, o pé da Patrícia amanheceu bem melhor. Com o analgésico e a faixa imobilizando, ela conseguia andar normalmente. Fomos então fazer a cavalgada aos pés do Vulcão Arenal. Foi a primeira vez que a Patrícia andou a cavalo, e ela saiu-se muito bem. O cavalo é que percebeu que ela não tinha experiência e ficou provocando, muitas vezes não obedecendo aos comandos dela. A primeira descida foi tensa, pois havia muitas pedras e a sensação de altura fica ainda maior em cima do cavalo, mas o momento mais preocupante foi quando o cavalo da Patrícia resolveu que não iria descer no outro caminho e tentou subir em um barranco, ficando parado no meio do caminho, com as patas dianteiras em cima do barranco e as traseiras na estrada – a mesma posição de um cavalo empinando, com a diferença que as quatro patas estavam no chão. A Patrícia ficou branca, com toda a razão, pois com essa brincadeira ela ficou a uns 2 metros de altura do solo e com o centro de gravidade todo pra trás… foi preciso o instrutor subir no barranco e puxar o cavalo para ele seguir no caminho certo. Com o tempo, Patrícia percebeu que tinha que manter a rédea curta, e mostrar quem realmente estava no comando ali.

O passeio seguiu sem muitos sobressaltos, com paisagens muito bonitas. Ventava muito, e as nuvens escondiam o cume do vulcão, mas tínhamos a sensação de que, cedo ou tarde, conseguiríamos vê-lo. Chegamos até um mirante, descansamos um pouco daquela posição de cowboy e aguardávamos ansiosamente pela aparição do vulcão, mas ainda não seria ali. Seguimos até o fim da cavalgada, com dores por todo o corpo, mas muito felizes com a experiência.

À tarde, fizemos o canopy. Eu já tinha feito muito cabo aéreo, tirolesa e essas coisas com cordas e roldanas na minha época de escoteiro, mas nada se comparava com aquilo ali. Todo o equipamento necessário: capacete, luvas, cadeirinha, mosquetões, instrutores, roldanas e cabos-de-aço. Seguimos com os instrutores até o início da base, recebemos as primeiras lições e a adrenalina começou. Fantástico, simplesmente divertido! A velocidade, o vento no rosto, a paisagem com árvores, rios e cachoeiras, a adrenalina acelerando o coração e a respiração. Até fizemos um trecho de cabeça para baixo! Para coroar o passeio, quando saímos da mata vimos o vulcão, completamente sem nuvens, soltando sua fumacinha para o céu azul.

No dia seguinte, pegamos novamente a estrada e fomos para a região do Lago Arenal, onde fizemos mais uma aventura: o Sky Tram e o Sky Trek. Novamente paramentados com capacete, luvas e roldana, pegamos um teleférico que sobe por entre as árvores de uma floresta nativa, até a base inicial do Sky Trek, com uma visão de toda a região do Lago. Pena que estava chovendo (apesar de ser a estação seca) e não conseguimos ver muita coisa. Fomos, então para as duas primeiras bases do Trek, que servem de instrução. Primeiro, posicionamento: ao contrário do Canopy, que é sentado, neste temos que nos apoiar totalmente na cadeirinha, ficando quase deitado de costas, com as pernas cruzadas à frente. A segunda lição, como frear: é só abrir as pernas e erguer o tronco.

Tudo aprendido? Respira fundo e vamos para o primeiro trecho real: não muito longo, não muito rápido, mas com 200 metros de altura no vão central! Depois do susto inicial, de passar um filme na sua cabeça, de achar que não vai chegar do outro lado e você vai ficar preso no meio do cabo-de-aço a 200 metros do chão, tudo passa muito rápido e, de repente, você está na próxima base. Depois, mais 7 trechos, incluindo um que chegava a 80 km/h e o último, com 750 metros de extensão! Loucura total, perfeito, excelente, indescritível! O melhor passeio da viagem, sem nenhuma dúvida! Ao final, uma xícara de chocolate quente para esfriar os ânimos e aquecer o corpo, e pé na estrada novamente, com destino a Monteverde.

Contornamos o Lago Arenal e pegamos uma estradinha de terra. Foi um trecho muito estressante, afinal descobrimos que o carro, além de fraco, era instável. Saía muito de traseira, mesmo eu estando de terceira e a 30 km/h! Muita calma nessa hora, mas muito cansaço também. Chegamos a Monteverde, almoçamos um casado, compramos alguma coisa no supermercado e fomos para o hotel. Estávamos em cima da montanha, e um vento forte, incessante e gelado nos castigava. Fazia uns 15 graus no máximo, e como não estávamos preparados para isso, preferimos ficar tomando vinho no quarto. Até o passeio do dia seguinte, as pontes suspensas, desistimos de fazer por causa do frio. Preferimos chegar logo ao nosso próximo destino: praia!

Mais um pouco de estrada de terra, com a vista espetacular da descida da serra, logo chegamos à Carretera Panamericana. Logo pegamos um acesso e estávamos numa rodovia secundária à beira do Oceano Pacífico. Mar azul, coqueiros, floresta nativa. A única coisa que atrapalhava a paisagem era a areia preta, vulcânica, que parecia mais com barro. Paramos em um penhasco onde um grupo de araras vermelhas fazia algazarra e voava entre as árvores, dando um show para os turistas. Logo adiante, um almoço com vista pro mar, peixe grelhado e suco natural.

Seguimos para o hotel, que ficava alguns quilômetros depois de Quepos, à beira de um penhasco de frente pro mar. Recepção de primeira, com toalha refrescante e drink de boas-vindas, deixamos as bagagens no quarto e fomos direto para a piscina. A partir das seis da tarde, dose dupla de bebidas no bar e logo chegou a hora de dormir. Na manhã seguinte, pegamos o ônibus do hotel, que nos deixou na praia de Manuel Antonio, um vilarejo que é a porta de entrada para o Parque Nacional de mesmo nome, um dos mais famosos do país. Não quisemos pagar para conhecer a praia privada do parque, preferindo ficar na praia pública mesmo. Quando o sol começou a ficar muito quente, por volta das 10 horas da manhã, sentamos em um bar, tomas algumas cervejas e logo voltamos para o hotel no ônibus, afinal a piscina com borda infinita para o mar estava muito mais convidativa do que a praia de areias escuras.

No sábado fizemos nosso último programa típico da Costa Rica: fomos ao Rainmaker, um tipo de Reserva Natural com pontes suspensas no meio da mata. Vimos muitas árvores, um tucano, três serpentes venenosas, várias borboletas e cigarras, mas o ponto alto da caminhada foi uma cachoeira de águas geladas, algo que ainda estava faltando na nossa viagem. Pena que o guia nos apressou, pois se dependesse de nós ficaríamos ali o dia inteiro. Voltamos para o hotel e, na hora do pôr-do-sol, seguimos a sugestão do motorista do hotel e fomos ao Restaurante Las Terrazas, onde apreciamos o pôr-do-sol mais lindo das nossas vidas, brindado com doses duplas de cerveja e mojito, e para completar uma lua cheia perfeita. Era o encerramento do passeio com chave de ouro!

Domingo era o começo da nossa volta. Saímos cedo do hotel, pois a viagem seria longa, e pegamos a estrada com destino a San José. Em um certo momento o GPS enlouqueceu completamente, pois passamos por uma estrada que tinha sido inaugurada no dia anterior e não estava em seu banco de dados ainda. Ficamos cansados de ouvir: “recalculando a rota”, “vire à esquerda””, “retorne quando possível”, até que tiramos o som da coitada da Sra. Wilson. Chegamos ao hotel, deixamos as bagagens e resolvemos conhecer um pouco da capital.

Era pra estar vazia, afinal era domingo à tarde, mas como aquele seria o último final de semana antes das eleições presidenciais, havia comícios e carreatas em vários pontos da cidade. Que, por sinal, era muito feia! A região do centro e dos pontos turísticos parecia muito com a região próxima à rodoviária de Belo Horizonte, um ar de submundo, sujo, lotes vagos e prédios pouco conservados. Nada nos chamou a atenção a ponto de querermos parar o carro, então voltamos para o hotel.

O último dia serviu apenas para nos lembrar que aquele país, apesar de toda a beleza, respeito à natureza, educação e cortesia da população do interior, não deixava de ser Terceiro Mundo, país em desenvolvimento. Logo cedo, passamos no supermercado para comprar Molho Lizano para trazer de lembrança. Não ficamos nem 15 minutos dentro do lugar e, quando saímos, percebemos que a tampa externa do tanque de combustível estava aberta e haviam roubado a tampinha interna, que não tinha chave. Vimos que a tampa externa do carro do lado também estava aberta, mas como a tampinha tinha chave ainda estava lá. Discussão com o segurança, uma rodada pelo lugar, e obviamente nenhum sinal do ocorrido. Passamos em uma oficina, que conseguia a tampinha original por 100 dólares, mas logo a frente tinha um posto de gasolina que nos vendeu uma a 10 reais. Depois dessa, voltamos para o hotel e apenas ficamos aguardando o horário para ir ao aeroporto.

Devolvemos o carro na locadora, que nos cobrou uma diária a mais de seguros e do GPS por um erro da Agência de Turismo, e logo fizemos o check-in no aeroporto. Fomos a uma loja de souvenir para comprar várias lembrancinhas, e na hora de pagar a caixa nos cobrou em uma peça 3 vezes o preço real. Reclamamos, e ela nos devolveu o dinheiro que tinha cobrado a mais. Ao sair da loja, sentamos no saguão à espera do avião, e resolvemos conferir os presentinhos. Não é que a caixa tinha “esquecido” de colocar aquela lembrancinha que tinha superfaturado? Voltei correndo à loja, e lá estava o presente, embrulhadinho, no balcão atrás da caixa. Como ela estava atendendo outras pessoas, me viu e apenas me entregou o embrulho, sem dizer nenhuma palavra.

Embarcamos no avião, Classe Executiva, tudo de bom! Cardápio diferenciado, com opções de escolha, e até espumante para beber. Escala de uma hora na Cidade do Panamá e, no próximo avião, Classe Executiva de novo. Seria ótimo, pois viajaríamos a noite toda e no dia seguinte eu teria que trabalhar. Pena que nos colocaram na última fila da Executiva, e a cadeira não inclinava igual às outras. Deitava somente o mesmo tanto que a Classe Econômica, então a diferença foi apenas a largura e conforto da cadeira. Para mim foi tranquilo, pois tenho muita facilidade para dormir, mas para a Patrícia foi um martírio. Ela não conseguiu dormir nada, ainda bem que teria o dia seguinte todo para descansar.

Chegando ao Galeão, estávamos tão cansados que nem quisemos passar no Free Shop. Ainda bem que nossas malas foram das primeiras a sair, pegamos e fomos os primeiros a passar pela aduana, já sonhando em chegar em casa. Foi quando percebi que a mala da Patrícia estava sem seu cadeado, e descobrimos que ela havia sido arrombada. Ao abrir, tudo revirado, porém demos falta apenas de uma caixinha de bijuterias da Patrícia. Nada muito caro, mas com grande valor sentimental. O nosso azar é que a caixinha era da H.Stern, então o larápio deve ter pensado que era algo de muito valor. Tentamos ir na Companhia Aérea, mas não havia ninguém lá. Ligamos para o SAC, mas não estava disponível. Fomos à Polícia Turística, que disse que teríamos que ir na Polícia Civil. Como estávamos cansados, principalmente a Patrícia, que não tinha dormido, resolvemos ir embora e tentar entrar em contato com a Empresa depois.

Escrevi e-mail no mesmo dia (02 de fevereiro) e até hoje não recebemos nenhuma resposta. Já nos conformamos com a perda, mas a sensação de invasão permanece. Como as malas não demoraram a sair no Galeão, cremos que o furto ocorreu na escala (uma hora) ou, mais provável, na Costa Rica, onde a mala ficou por três horas do check-in até o embarque. Fica a lição: objetos de valor, financeiro ou sentimental, só na bagagem de mão, ou passar o Protect-bag na mala. Infelizmente…

Esse último dia poderia não ter existido, ou poderíamos ter evitado vários desses probleminhas. Ainda bem que estávamos com um espírito tranquilo, clima de lua-de-mel, aumentados por causa do ótimo passeio e do contato direto com a natureza. Clima de “Pura Vida!”, que é a forma como os locais se cumprimentam. Equivale ao nosso “beleza?!”, e significa exatamente isso: uma vida pura, plena e repleta para você!

Para ver as fotos, acesse: http://picasaweb.google.com/hernani.m/CostaRica#

Mosaico de fotos da Costa Rica

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A Ilha dos Templários

10 11 2008

Minha primeira semana em Bornholm foi de férias. Aproveitei que as aulas iriam começar somente na semana seguinte, que os dias estavam bastante longos e que eu tinha acabado de conseguir uma bicicleta emprestada para andar pela ilha toda. Nessas pedaladas, pensava muito no Brasil e nas pessoas que ficaram aqui, mas de uma forma que a saudade não apertava, pois eu estava direcionando toda a energia para o exercício físico. Era uma ótima maneira de sentir saudades!

Também na primeira semana, hospedou-se na nossa casa um missionário sul-africano, chamado Solomon, que foi um ótimo companheiro de pedaladas.

Hernani, Solomon e Vagn tomando café-da-manhã
Hernani, Solomon e Vagn tomando café-da-manhã

Bornholm é uma ilha em forma de losango, com 40 quilômetros de largura por 40 quilômetros de comprimento. Seu ponto mais alto, Rytterknægten, tem 162 metros de altitude em relação ao nível do mar e fica bem no centro da ilha. É um lugar perfeito para andar de bicicleta, isso sem contar os incontáveis quilômetros de ciclovias que interligam todas as suas cidades.

Apesar de ser um lugar tão pequeno, possui uma variedade enorme de paisagens. No noroeste, há desfiladeiros de rochas e praias pedregosas, e a mais antiga ruína da Escandinávia, o castelo de Hammershus. No sudeste da ilha, praias de areia branca e fina, que formam dunas de até 10 metros de altura, na região chamada de Dueodde. No centro da ilha, várias florestas replantadas de pinheiros, onde há animais selvagens como faisões, lebres, veados e raposas.

Jons Kappel - Desfiladeiros no noroeste de Bornholm

Jons Kappel - Desfiladeiros no noroeste de Bornholm

Hammershus - a maior ruina da Escandinávia

Hammershus - a maior ruína da Escandinávia

Dueodde - dunas de areia branca

Dueodde - dunas de areia branca

A ilha tem cerca de 40 mil habitantes, e um quarto deles mora na capital, Rønne. As outras grandes cidades são Nexø, Aakirkeby, Sandvig-Allinge e Gudhjem.

Moinho de vento simbolo da cidade de Gudhjem

Moinho de vento símbolo da cidade de Gudhjem

As principais atrações turísticas da ilha são as rundkirke, as igrejas com arquitetura exclusiva, construídas em forma circular, que serviam também como fortificações na Idade Média. São 4 no total, em Nyker, Nylars, Olsker e Østerlars. Reza a lenda que essas igrejas foram construídas pelos Cavaleiros Templários, e que estão milimetricamente colocadas nos vértices de um pentagrama, juntamente com a que fica na ilhota de Christiansø, ponto mais oriental da Dinamarca. Já foi até tema de um documentário no Discovery Channel!

Uma das igrejas circulares de Bornholm

Uma das igrejas circulares de Bornholm

O povo de Bornholm, como o restante dos dinamarqueses, é extremamente amigável, não perdem a oportunidade de te cumprimentar com um bom sorriso no rosto. A maioria absoluta fala inglês perfeitamente, e muitos ainda têm boas noções de alemão. São prestativos, porém fazem de tudo para não incomodar nem invadir a privacidade e a individualidade do próximo. Por isso a fama de serem frios e liberais: nenhum dinamarquês vai questioná-lo ou chamar a sua atenção por fazer qualquer coisa, a não ser que seja ilegal ou que esteja ferindo a sua própria individualidade. Assim, são muito dispostos a ajudar, dar informações, dar carona. Agradecem por tudo: pela comida, pela hospitalidade, pela gentileza do último encontro. Cabelos loiros, estatura alta e olhos azuis formam a maioria absoluta, e meu cabelo preto e olhos castanhos destoavam do cotidiano e chamavam a atenção.

Além do turismo, principalmente nas férias de verão, a ilha é especializada na pesca de arenque, sendo que o defumado é o prato típico (e delicioso). Além disso, muitas plantações de milho, soja e beterraba, assim como criações de vacas leiteiras e porcos.

Arenques defumados

Arenques defumados

Por falar em comida, depois de 12 dias jantando batata religiosamente, não aguentei e pedi para variarem o cardápio. A partir daí, pelo menos duas vezes por semana tinha arroz ou macarrão para acompanhar a carne no jantar.

E a cada dia que passava eu entendia cada vez mais o significado de uma palavra que não tem tradução do Dinamarquês para nenhuma outra língua: HYGGE! É um tipo de sensação boa, de conforto, de aconchego, de aceitação, de relaxamento, de tranquilidade. E entendia porque Bornholm era chamada de ilha do hygge: a cada dia me sentia mais confortável, mais em casa, mais aconchegado a todas aquelas novidades!





A praia dos mineiros

5 09 2008

Quem disse que Minas não tem mar nunca foi ao litoral que vai de Cabo Frio/RJ a Ilhéus/BA no verão. Você encontra mais carros com placas das cidades de Minas do que da própria cidade em que está. Dizem que existe até uma proposta para trocar, com o Estado do Rio de Janeiro, em definitivo, Juiz de Fora por Cabo Frio.

Assim, fui com meu pai em uns 4 verões seguidos a Gurapari, e depois uma vez a Vila Velha com dois dos meus irmãos. Isso foi no final dos anos 80 e início dos 90.

Como sempre, eu e o Claudio íamos par Brasília em dezembro, para as férias escolares. Me lembro que, na primeira vez, viajamos bem cedo no dia 1º de janeiro, então ficamos acordados só para “ver” a passagem do ano. Viajamos até Contagem, na Grande BH, e dormimos na casa dos parentes que tinham a casa na praia e iriam viajar conosco no dia seguinte. Era uma prima da idade do meu pai e seus quatro filhos, todos na mesma faixa etária minha e do Claudio, ou seja, entre 12 e 18 anos. Lembro, também, que toda vez que passava por BH eu ficava doente, com irritação na garganta, por causa da poluição.

A casa ficava na praia de Santa Mônica, fora da cidade de Guarapari. Era uma praia excelente para crianças, com extensa faixa de areia, rasa e sem ondas. Boa para tomar sol, jogar futebol e frescobol, mas a nossa inquietude adolescente nos levava para desafios mais ousados, como ir para as praias de Setiba e Setibão, na maioria das vezes pelos rochedos, pois lá tinha ondas maiores.

Os rochedos também eram os lugares de ficar apreciando a quebra das ondas, o pôr-do-sol… e de algumas topadas com o dedão do pé que demoravam a cicatrizar! Na direção oposta a Setiba, a aventura pelos rochedos saía nas Três Praias, uma propriedade particular da Varig, repleta de farofeiros e com uma paisagem fantástica: como o nome diz, três pequenas praias, com água cristalina e quase nenhuma onda, praticamente três piscinas naturais de água salgada.

Quando queríamos encontrar os outros mineiros, principalmente outros parentes que estavam em Guarapari, íamos para a Praia do Morro. Cheia de gente, urbanizada, quiosques, vendedores, empadinha de camarão e ondas. E o passeio pelo calçadão do centro da cidade, Praia das Castanheiras e a Praia da Areia Preta, com banhistas enterrados até o pescoço buscando suas propriedades medicinais.

Todas as vezes que fomos a Guarapari, sempre rolou uma esticadinha a Vitória e Vila Velha. Inesquecível o cheiro de chocolate que toma conta da cidade, por causa da fábrica da Garoto. Logicamente, sempre rolava uma passadinha por lá para comprar um mundo de chocolate! E a subida ao Convento da Penha, para apreciar toda a paisagem lá de cima.

Em 91, para quebrar o ciclo de Guarapari, fui com o meu irmão mais velho, sua esposa e dois dos seus filhos – com 9 e 3 anos na época – e meu irmao mais novo para Vila Velha, Praia de Coqueiral. Chegamos à praia no dia em que estourou a Guerra do Golfo, por isso me lembro do ano… o esquema era totalmente diferente dos anos anteriores, pois dessa vez teríamos que dividir as despesas, os almoços, os passeios. Fomos até Marataízes, por uma estrada que passa por plantações de abacaxi intermináveis e chegando às águas escuras influenciadas pela foz do rio Itapemirim; e até Domingos Martins, cidade de imigração alemã, situada na serra, com várias cachoeiras e onde estava ocorrendo um festival folclórico. Diversão e aventura garantidas!!!

Fui a Cabo Frio no carnaval de 2002, junto com meus colegas de banco. Tirando a lotação de gente, o funk carioca, os constantes piques de luz e faltas temporárias de água, foi bastante divertido. A água gelada confirma o nome da cidade, e aproveitamos para conhecer Búzios e as badalações da Rua das Pedras. Foi a primeira vez que dirigi na estrada BH-Rio, algo que virou rotina alguns anos depois.

Tenho curiosidade para saber se Guarapari continua do mesmo jeito… mas tem tanto lugar pra conhecer por aí, por que repetir né??? Talvez seja melhor ficar com as lembranças adolescentes…





A primeira vez!

29 08 2008

A minha primeira grande aventura foi aos 8 anos de idade, quando eu já morava em Montes Claros e passava as férias em Brasília. Meu pai resolveu apresentar o mar aos filhos mais novos, o Claudio e eu. E já que seria um grande empreendimento sair de Brasília e ir até a praia, melhor fazer uma aventura inesquecível! Pena que minha memória é fraca desde pequeno, e tenho poucas lembranças da grande jornada.

Meu pai já havia planejado tudo: comprou uma KOMBI bege com bagageiro no teto, mapas rodoviários, combinou com um casal de primos, e se preparou para levar 12 pessoas para Fortaleza!!! Um roteiro de quase 5.000 quilômetros, saindo de Brasília e chegando em Taiobeiras… uma loucura que realmente inaugurou meu gosto por aventuras e viagens!

Meu pai havia se casado novamente com sua prima. Levou um dos filhos dela, o irmão com sua família (esposa e 4 crianças), e o pai deles. Assim, a trupe era formada por dois casais com idade entre 40 e 50 anos, o tio-avô com seus 70 e poucos, um adolescente de 18 anos, e 6 crianças entre 6 e 12 anos.

A viagem foi em janeiro, e cruzamos todo o sertão nordestino em três dias para chegar lá. Interessante cruzar o Rio São Francisco por duas vezes em lugares diferentes, ver cactos, seca, árvores com galhos retorcidos, ermo, calor… Imagina esse tanto de gente, numa Kombi, bagagem toda no teto coberta por uma lona, num calorzão de sertão nordestino em pleno janeiro! Não me lembro se parávamos para comer em restaurantes de beira de estrada ou se éramos verdadeiros farofeiros. Acho que um pouco dos dois.

A primeira noite foi em Ibotirama, um hotel muito bonito às margens do Rio São Francisco. O segundo pernoite foi em Juazeiro do Norte, e me lembro que paramos em um estabelecimento na beira da estrada, que tinha cama redonda e espelho no teto, e que não podíamos ver televisão ali. Acho que foi o único lugar que tinha pra ficar naquela cidade, na hora em que chegamos. No terceiro dia finalmente chegamos ao nosso destino, e conseguimos ver o mar pela primeira vez! Euforia, vislumbre, fascinação, ansiedade para o dia seguinte chegar logo e irmos para a praia.

Conseguimos uma pousada na Praia de Iracema, um quarto com vários beliches para as crianças, quartos duplos para os casais. Como todo bom mineiro, molhei o pé, pulei as primeiras marolinhas e provei, meio sem querer, para comprovar que a água era realmente salgada… Fomos à Praia do Futuro, que naquela época não era tão badalada, e onde tomei o primeiro caldo de onda da minha vida… provavelmente rodamos um pouco nos pontos turísticos da cidade, mas logo fomos para nosso segundo destino: Morro Branco/Beberibe.

Ficamos em um apartamento a uns 200 metros da praia. Tinha piscina, tinha duna de areia bem perto, e o mar não era tão bravo. Muito sol, frescobol, futebol, passeio nas dunas, caminhadas pela praia… teve saída noturna para festas de carimbó, fotos de pôr-do-sol, costas ardendo à noite e descascando depois de uns 3 dias (quem usava protetor solar em 86?)

Na volta passamos pelas capitais, mas de uma forma meio “só pra constar”: Natal, João Pessoa e o ponto mais ocidental das Américas, Recife e seus canais, primeiro pernoite da volta. Maceió e Aracaju e o mar verde com coqueiros infinitos, e a volta pro sertão, dormindo em Alagoinhas da Bahia. Nunca vi tanto pernilongo na minha vida, coisa absurda. Foi difícil dormir, com medo de ser carregado pelas muriçocas!

Depois diretamente para Taiobeiras, visitar os avós e contar as novidades para os primos. E para fechar a viagem com chave de ouro, descobri que tinha pegado caxumba…

Aos leitores mais empolgados, lamento decepcionar-lhes: esse é um blog de lugares e viagens, e vocês não encontrarão contos eróticos por aqui.





Grande Sertão

12 08 2008

Minha família se mudou de Montes Claros e me levou para Janaúba quando eu tinha menos de seis meses de idade. De lá, eu só me lembro da viagem de trem que fiz um tempo depois, com meus irmãos mais velhos, para visitar velhos amigos deles. E daquele carnaval que catei um bocado de mato na estrada por causa de um ônibus com farol alto.

Depois moramos em Francisco Sá, o famoso Brejo das Almas. Eu me lembro do cajueiro que tinha no quintal de casa, e das várias vezes que voltei à cidade na adolescência para festas e comemorações.

Antes dos três anos de idade eu morava em Brasília, e já tinha me mudado de casa 5 vezes! O sangue cigano corre forte nas veias dos Mendes Miranda…

Voltei a morar em Montes Claros aos 6 anos de idade, e fiquei por lá até os 18 anos. Nesse intervalo, tive a oportunidade de conhecer inúmeras cidades do Norte de Minas… todas cidades pequenas, com muitas coisas em comum.

O ponto de encontro dessas cidades costuma ser a pracinha da igreja, ponto de azaração depois da missa de domingo. Geralmente tem uma sorveteria que faz a festa da cidade, e à noite alguns barzinhos que estimulam os relacionamentos interpessoais dos nativos e a alegria dos forasteiros. Tem muita menina bonita, e nada de ingenuidade ou inocência como diz o imaginário popular. Muito calor, com diferença apenas na umidade do ar, fazendo com que você “frite” ou “cozinhe” no verão. No inverno tem lugar que faz até frio, no alto da Serra do Espinhaço. Se fizer 15 graus já tem gente morrendo congelado!

Bom mesmo é que em cada casa que você vai sempre tem café com biscoito, pão-de-queijo, doces, um almocinho, alguma coisa pra comer. Não pode negar, fica com jeito de falta-de-educação ou desfeita. Mas é um sacrifício comer os quitutes mineiros, né?

E no final sempre acaba arrumando uma fazenda, um sítio, uns cavalos encilhados, rio, cachoeira, ou alguém que tem os esquemas pra entrar no melhor (ou único) clube da cidade e passar o dia inteiro na piscina!

Bocaiúva era caminho pra BH. Nem sei se efetivamente conheci a cidade ou somente a rodoviária e a rodovia que a cruza.

Pirapora é bem legal, primeiro era ponto de parada para almoçar uma excelente moqueca de peixe na viagem para Brasília, depois virou destino de carnaval adolescente. Januária tem um carnaval famoso também, e cachaça da boa.

Meu irmão mais velho morou em João Pinheiro por algum tempo, que juntamente com a vizinha Paracatu virou destino de algumas férias divertidas e festas animadas.

Tem uma cidade que se chama Japonvar, pois fica no entroncamento das cidades de JAnuária, São João da PONte e VARzelândia… aliás, é cada nomezinho que as cidades brasileiras têm viu…

Várzea da Palma, Coração de Jesus, São Francisco, Porteirinha, Grão Mogol, Juramento, Joaquim Felício, Capitão Enéas, Francisco Dumont, Engenheiro Navarro, Engenheiro Dolabela, Barra do Guaicuí, foram destinos de acampamentos escoteiros, com direito a muito carrapato, mato, machucados, aventuras, banho gelado de rio, fogueira para espantar o friozinho da madrugada.

Mato Verde, Monte Azul, Pedra Azul, Varzelândia, Mirabela, Rio Pardo, Itacambira, Glaucilândia, Guaraciama, Patis, Botumirim, Espinosa, São João do Paraíso, são cidades que a gente falava tanto que eu já não sei mais se eu realmente conheci pessoalmente…

Salinas era caminho para Taiobeiras, até descobrir a cachaça, as festas e as meninas.

Nas estradas da região, muito pasto, reflorestamento de eucalipto, e cerrado pra todos os lados. O poeirão vermelho que sobe das estradas de terra, que na época de chuva vira uma lamaceira só. Uma riqueza cultural imensa, e a natureza não fica para trás. O Norte de Minas é um lugar esquecido e pouco valorizado até pelos seus próprios habitantes, mas que tem muita coisa boa e muito potencial.

E muita história, e muita estória… João Guimarães Rosa que o diga!