Ascendência

5 08 2008
Meu pai nasceu em Taiobeiras, cidade de 30 mil habitantes a 270 quilômetros ao nordeste de Montes Claros. Boa parte deste ramo da família ainda moram lá, assim como meus avós paternos, fortes e lúcidos, que completarão 77 anos de casados em janeiro do próximo ano.

Taiobeiras era destino de férias quando criança. O asfalto ia somente até Francisco Sá, e o resto era de terra. Lembro da contagem regressiva feita pelo meu pai toda vez que o asfalto se aproximava; de quando parávamos no meio da estrada para almoçar, num programa piquenique excelente para crianças. E quando chovia, era só o barro. Mas depois o asfalto ficou pronto e o charme diminuiu um pouco, mas em compensação dava tempo de chegar para almoçar aquela comidinha feita por vó no fogão à lenha, aquele feijão na panela de ferro, carne moída com chuchu, carne de sol, pequi, e o doce de marmelo de sobremesa – indescritível!!!

Uma cidade típica do interior, calma, pacata, quase histórica. Plana, de ruas largas, com calçamento de hexágonos de concreto, a Rua da Liberdade com suas palmeiras imperiais e a Matriz ao fundo como cartão-postal da cidade.

A antiga casa dos meus avós era fantástica: muitos quartos para toda a família, uma mureta no jardim que servia de playground pra molecada, o quintal gigante que se interligava com as casas de outros dois tios, e tinha de tudo: umbu, siriguela, manga, galinha, lagartixa, o forno de assar biscoito, e o pé-de-pequi. E as janelas que davam pra rua, onde ficávamos assuntando o movimento e provocando os passantes.

O pé-de-pequi era o quartel general, ponto de encontro dos primos. Uma geração de umas 20 crianças, todas com uma diferença de 12, 13 anos. Histórias sem fim que rendem causos até hoje nas festas de família.

Mas o ponto alto das férias era ir pra fazenda da família, o Coqueiro. Distante seis quilômetros da casa, o percurso era primeiramente percorrido na traseira da Caravan do meu pai, junto com todos os primos – a gente corria cada risco e nem sabia! Depois, mais grandinho, ficou marcada a primeira vez que fui à pé. Depois a bicicleta, até carroceria de caminhão já juntou a família para levar pro Coqueiro.

As imagens inesquecíveis do Coqueiro: a casinha branca, com janelas e portas azuis, um terreiro na frente que volta-e-meia tinha café secando ao sol, a cerca de madeira azul na entrada; o curral no alto do morro à frente da casa, Tio Dezim tirando leite das vacas e apartando os bezerros, os pés de laranja no pomar atrás do curral; no fundo da casa, a bica em que todas as crianças da família tinham que ser “batizadas”, galinhas, gatos, cachorros, aquele peru enfezado que avançava em todo mundo; os pés de carambola, manga, marmelo e umbu; o engenho de moer cana e fazer cachaça; o riozinho que – contam – dava até pra nadar antigamente; os chiqueiros com seus leitões curiosos; a caminhada até a cachoeira, que geralmente estava tomada por mato e virava uma verdadeira aventura; a cachoeira e sua água gelada; os passeios de cavalo; as festas de família.

O Coqueiro e a carroceria do caminhão

O Coqueiro e a carroceria do caminhão

O curral

O curral

A bica

A bica

As bodas dos meus avós são sempre comemoradas. Nos 60 anos de casados, ficaram marcadas a chuva, a queda das pontes de Salinas e o desvio pela estrada de terra, os carros atolados, a dificuldade para chegar e sair do Coqueiro.

Nos 65, as boas notícias do vestibular: eu, meu irmão Claudio e meu primo Murilo, devidamente encarecados pelas mãos do meu avô com a sua tesoura de tosar burro.

Nos 75, o reencontro com grande parte da família depois de 10 anos. Primos crescidos, filhos nascidos, e a mesma sensação de aconchego que só a família pode trazer. Nesta festa, o reencontro dos  primos foi um retorno à infância: marmanjos de 18, 20, 22, 29 anos brincando de pique-pega na rua, tocando campainha e correndo, jogando mau-mau e copo d’água. Clube, piscina, Coqueiro, cachoeira, pracinha, rolos e enrolações… A festa teve direito a reportagem do SBT mineiro, do jornal O Estado de Minas e até de notinha na Veja!!!

Familia Miranda na Veja

Família Miranda na Veja

Apesar de morar no Rio há 5 anos e ter morado em BH por 6, foi em Taiobeiras que presenciei o primeiro assassinato. Como de costume, o pessoal se divertia nos botecos da pracinha à noite, quando após uma ligeira confusão, um revólver e dois tiros. Correria, todo mundo tentando se esconder, o corpo cai do meu lado sangrando na barriga. Preocupação com os primos, todos bem apesar do desespero, saímos o mais rápido possível dali. Quem disse que precisa ser cidade grande para ser violenta?

E no sábado tem a feira. Como sempre, o melhor lugar para se conhecer um povo. Gente de toda a região, com seus produtos: queijo, requeijão, rapadura, tempero, galinha, porco, melancia, pequi, pastel com caldo-de-cana… uma profusão de cores, sabores, cheiros, sensações e relações.

E ainda faz frio no inverno. Faz frio, dá neblina, e é bom demais ficar ali, à beira do fogão-de-lenha, com um cafézinho com biscoito, doce de leite e dois dedos de prosa com os avós que têm muita história pra contar!

P.S.: as fotos são do meu irmão Ely René. Não consegui colocar as fotos do mercado, que estão excelentes. Virão em uma próxima oportunidade.

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One response

9 08 2008
Flávia

Que delícia de post Hernani, viajei à sua infância e também à minha! Amei!
Bjos e saudades

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